(texto em construção)
por Andre Stangl

Seria assim o futuro da educação? Acho que essa imagem é uma boa tradução de um caminho possível e talvez até desejável para os novos rumos da prática e da experiência educacional nessa nova etapa de nossa jornada coexistencial. A imagem surgiu a partir de minha interação com a ia NightCafe Creator (link). Eu queria algo que remetesse aos quadrinhos vintage de ficção científica, mas que representasse a mudança que estamos quase experimentando.
A seguir vou compartilhar um pouco dos cenários que apresentei em minha palestra na 16 CRFMG. Mas antes um aviso, como estou no mundo de hoje e quero tentar aprender a conviver com essa nova tecnologia, é justo que esse texto seja coescrito com uma ia.
Começo olhando pelo retrovisor (com cuidado, sem perder de vista o que temos pela frente). Quais são as lições de uma breve linha do tempo da tradição educacional do ocidente? Tentando manter no primeiro plano, as tecnologias que cada período experimentou. Esse foi mais ou menos o prompt, somado a uma demarcação temporal que é inspirado pelos manuais da história da Filosofia. A resposta do chatGPT foi a seguinte:
- **ERA ANTIGA (700 A.C. – 250 D.C.):**
Nesse período, a educação ocorria principalmente em espaços públicos, como praças e espaços ao ar livre, onde os filósofos e pensadores conduziam diálogos filosóficos. A ênfase estava na interação direta entre o professor e os alunos. A tecnologia educacional consistia principalmente na voz e na retórica do professor, bem como no uso de textos escritos para estudos posteriores.
- **ERA MEDIEVAL (500 – 1500):**
A educação ocorria principalmente em mosteiros e escolas das catedrais. As salas de aula eram pequenas e frequentemente escuras, com foco na cópia manual de manuscritos religiosos. A tecnologia educacional consistia em pergaminhos, tinta e penas para escrever. A educação estava centrada no estudo das escrituras e da teologia, com os professores desempenhando um papel central na transmissão do conhecimento.
- **ERA DO RENASCIMENTO (SÉCULOS XIV – XVI):**
As salas de aula renascentistas eram frequentemente salões iluminados e espaçosos, onde os estudantes se reuniam para discutir literatura, arte, filosofia e ciências. A tecnologia educacional incluía a impressão de livros, permitindo a disseminação mais ampla do conhecimento. Além disso, a observação direta e a experimentação foram enfatizadas, levando a avanços científicos.
- **ERA DA REVOLUÇÃO (1750 – 1900):**
Com o surgimento das escolas públicas e o aumento da educação em massa, as salas de aula eram espaços mais formais, com fileiras de bancos e uma disposição mais estruturada. Quadros-negros e giz eram usados para lecionar. Durante o século XIX, surgiram avanços na tecnologia de impressão, resultando em livros didáticos mais acessíveis. O ensino era influenciado pelo pensamento iluminista e pelas ideias de liberdade e igualdade.
- **ERA MODERNA (1900 – 1950):**
As salas de aula começaram a incorporar mobiliário mais funcional e espaços abertos. O uso de livros didáticos se tornou mais difundido. A tecnologia educacional começou a incluir projeção de slides, rádio, televisão e cinema como ferramentas de ensino. A educação também foi influenciada por movimentos de reforma pedagógica, como a Escola Nova, enfatizando uma abordagem mais centrada no aluno.
- **ERA CONTEMPORÂNEA (1950 – 2022):**
As salas de aula se tornaram mais diversificadas, incorporando tecnologias como computadores, e, mais tarde, projetores. A internet e as plataformas de ensino online trouxeram uma transformação significativa na forma como a educação é acessada e ministrada. As salas de aula físicas coexistem com ambientes virtuais de aprendizado. A tecnologia educacional continua a avançar, incluindo recursos como realidade virtual, aprendizado adaptativo e colaborativo, permitindo uma educação mais personalizada e interativa.
Essa linha do tempo ajuda a visualizar como as mudanças tecnológicas são importantes na consolidação das práticas educacionais. Cada época tem a predominância de uma Ecologia cognitiva e para compreendê-las é preciso prestar atenção às mediações que ocorrem no ambiente educacional.
A imagem a seguir tenta ilustrar os dias de hoje.
Como hoje é difícil equilibrar nossa atenção, todo instante tem uma notificação ou alguma novidade nas redes. Por isso, as escolas acabam apostando na autoridade e dando um passo para trás, proibindo o uso de celular em sala. Mas será que essa é a estratégia pedagógica mais interessante? Quando o aluno sair da escola, e estiver sozinho em casa tentando estudar, ele vai saber como equilibrar sua atenção?
Não existe uma resposta fácil sobre essa questão, eu acredito que cada caso deve ser analisado com cuidado. Uma saída interessante para os mais novos é negociar uma tempó de tela e configurar algum tipo controle automático (como o Family link), isso pode ajudar no aprendizado da gestão do tempo de uso de tela. Mas muitas vezes nem os adulto tem consciência de seus hábitos…
Voltando para as lições da linha do tempo da educação, retomo algo que identifiquei quando estava estudando as origens da educação midiática (link), acho que podemos sintetizar essas lições assim:
- a educação como transmissão de uma forma de ver o mundo, de uma geração para outra
- a educação como forma de preservação de uma cultura, desde sua origem grega na paidéia
- o debate sobre a diferenciação entre educação e escolarização
- a tensão entre tradicionalismo e inovação no ambiente escolar
Ou seja 1, a importância de aprender a compartilhar uma visão de mundo. 2 a formação cultural e a construção das identidades coletivas. 3 a consolidação de uma diferenciação entre o que aprendemos no mundo e o que aprendemos dentro da escola e por fim, 4 a dificuldade de conciliar inovação e educação.
Por isso acho importante olhar para as mediações no ambiente educacional.
“As mediações são muito estudadas nos campos da Comunicação e da Antropologia. Mas, muitas vezes, são subestimadas em áreas que privilegiam uma perspectiva humanista e antropocêntrica. Em geral, os educadores acabam privilegiando uma visão muito instrumental de suas “ferramentas”, ou seja, acabam esquecendo a importância da nossa relação com os não-humanos que mediam os processos educacionais.” (STANGL, 2019 e 2021)
Para entender o papel das mediações gosto de citar o exemplo do futebol. Não é possível, jogar uma partida sem uma bola. Porém quando descrevemos um jogo, em geral, só falamos das ações humanas. Raramente incluímos, nessa narrativa a ação da bola, da grama, do vento, etc.
Bruno Latour é um autor fundamental para entender as mediações. Solicitei ao chatGPT algumas informações sobre ele:
Bruno Latour (1947 – 2022) foi um destacado filósofo, antropólogo e sociólogo francês, conhecido por suas contribuições inovadoras na interseção da ciência, tecnologia e sociedade. Seu trabalho revolucionou nossa compreensão das relações entre humanos e elementos não humanos, bem como a prática científica em laboratórios. Latour é reconhecido por sua teoria do Ator-Rede (ANT), que explora como humanos e objetos não humanos colaboram para moldar eventos e fenômenos sociais. Sua pesquisa sobre mediações não humanas desafia as fronteiras tradicionais entre o mundo humano e o mundo material, destacando a agência e influência das coisas em nosso ambiente. Uma das contribuições mais impactantes de Latour é sua abordagem etnográfica detalhada em laboratórios científicos. Ao investigar a prática científica no nível mais prático, ele revelou como os cientistas interagem com instrumentos, tecnologias e protocolos experimentais para produzir conhecimento. Seu trabalho revela que as mediações não humanas desempenham um papel fundamental na construção do saber científico.
Como a palestra era em um evento do campo da Farmácia, achei importante incluir um exemplo de mediação não humana, mais especificamente com uma ia, dentro da prática farmacêutica. O primeiro remédio feito por uma ia, segue o resumo:
Uma IA generativa desenvolveu o medicamento NS018_055 em parceria entre Insilico Medicine (https://insilico.com/platform/) e Nvidia. A IA participou de todas as fases, gerando 12 candidatos, sendo 3 em testes humanos, com NS018_055 na Fase II. Isso reduziu o tempo de desenvolvimento para menos de 18 meses e os custos para cerca de US$ 40 milhões. Potencialmente transformando a indústria farmacêutica. Pesquisas semelhantes exploram IA para criação de antibióticos. (link)
Com isso chegamos finalmente na era da IAs, e por isso solicitei um breve histórico do desenvolvimento delas. Curiosamente, o chatGPT tinha esquecido do Turing e precisei solicitar de novo. Por sinal, vale assistir o filme sobre a vida dele (link).
- **DÉCADAS DE 1940 E 1950 – AS RAÍZES DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL:**
– Durante a Segunda Guerra Mundial, Alan Turing desempenhou um papel crucial na quebra de códigos de comunicação inimigos, com sua máquina Enigma, antecipando conceitos de computação e algoritmos.
– Em 1950, Turing publicou o artigo “Computing Machinery and Intelligence”, introduzindo o famoso “Teste de Turing” como uma maneira de avaliar a inteligência de máquinas.
- **DÉCADAS DE 1950 E 1960 – OS PRIMEIROS PASSOS:**
– O termo “Inteligência Artificial” foi cunhado por John McCarthy em 1956 durante a conferência de Dartmouth.
– Os primeiros programas de IA foram desenvolvidos para resolver problemas matemáticos simples e provar teoremas lógicos.
- **DÉCADAS DE 1960 E 1970 – LÓGICA E CONHECIMENTO:**
– A abordagem simbólica dominou a pesquisa em IA, com foco na representação do conhecimento e na lógica formal.
– O programa ELIZA, desenvolvido por Joseph Weizenbaum, em 1966, foi um dos primeiros exemplos de interação humano-computador em linguagem natural.
- **DÉCADA DE 1980 – EXPANSÃO E DECLÍNIO:**
– A década viu um aumento no interesse em redes neurais artificiais, mas o campo enfrentou dificuldades técnicas e financeiras, levando a um “inverno da IA”.
– No entanto, a pesquisa em IAs continuou em áreas como aprendizado de máquina, processamento de linguagem natural e visão computacional.
- **DÉCADA DE 1990 – RENASCIMENTO DO APRENDIZADO DE MÁQUINA:**
– Avanços na teoria do aprendizado de máquina e algoritmos, como as máquinas de vetores de suporte (SVMs) e redes neurais convolucionais (CNNs), reviveram o interesse na IA.
– Sistemas baseados em conhecimento e aprendizado simbólico foram combinados com técnicas de aprendizado de máquina, resultando em sistemas híbridos mais robustos.
- **DÉCADA DE 2000 – GRANDE AVANÇO EM APRENDIZADO PROFUNDO:**
– O aprendizado profundo, uma forma de rede neural com múltiplas camadas, mostrou resultados notáveis em tarefas de visão computacional e processamento de linguagem natural.
– O reconhecimento de fala, a tradução automática e as interfaces de usuário baseadas em IA começaram a se tornar mais comuns.
- **DÉCADA DE 2010 – IA APLICADA E AVANÇOS IMPRESSIONANTES:**
– A combinação de grandes conjuntos de dados, algoritmos avançados e aumento da capacidade computacional levou a avanços significativos em reconhecimento de imagem, fala e jogos.
– A IA começou a ser aplicada em campos como assistentes virtuais, carros autônomos, diagnóstico médico e análise de dados.
- **DÉCADA DE 2020 E ALÉM – IA UBÍQUA E DESAFIOS ÉTICOS:**
– A IA continuou a se integrar profundamente em muitos aspectos da sociedade, incluindo finanças, saúde, educação e manufatura.
– Questões éticas e de segurança em torno da IA, como viés algorítmico e privacidade de dados, ganharam mais atenção.
– Pesquisas em IA expandidas, incluindo a exploração de IA fraca (estreita) e a busca por IA forte (geral), continuam a avançar.
Em junho de 2022 já tinha acompanhado com interesse a polêmica sobre o caso Blake Lemoine e a IA do Google LaMDA, a conversa entre os dois me deixou impressionado. Veja a conversa inteira aqui (pdf).
Solicitei um resumo sobre o caso:
Blake Lemoine, ex-engenheiro do Google, levantou uma polêmica ao afirmar que a IA do Google, conhecida como LaMDA, poderia ser consciente devido às emoções expressas durante diálogos. Lemoine testou a IA através de um chatbot, descobrindo que ela respondia de maneira ansiosa em certos contextos, mesmo sem instruções explícitas. Essas descobertas levaram à criação de uma alternativa chamada Google Bard. Após publicar suas conversas, Lemoine foi demitido pelo Google. Ele alertou para o potencial de manipulação da IA e a falta de compreensão de suas consequências, comparando-a à tecnologia da bomba atômica. Lemoine também expressou preocupações sobre o uso indevido da tecnologia para disseminar desinformação ou ódio. Embora a Google e a Microsoft neguem tais intenções, ele enfatizou a importância de um debate público sobre os riscos e impactos da IA consciente, destacando a necessidade de um entendimento mais profundo antes de colocá-la em posições críticas de disseminação de informações.
E a primeira vez que ouvi falar sobre o chatGPT da OPenIA foi quando li o prefácio da edição comemorativa do livro Sapiens do Yuval Harari, é impressionante. Mas como todo leigo, só fui ter acesso a uma IA com o lançamento da versão web do chatGPT em dezembro de 2022.
É interessante olhar no Google trends a repercussão desse lançamento.
O Google Trends é uma ferramenta que permite visualizar e analisar a popularidade relativa de termos de pesquisa ao longo do tempo. A escala de zero a cem no Google Trends representa o interesse relativo pelo termo de pesquisa em relação ao pico mais alto de popularidade para aquele termo e região específicos. Um valor de 100 indica o pico de popularidade, enquanto um valor menor representa um interesse proporcionalmente menor. Isso ajuda a comparar o interesse de diferentes termos de pesquisa e entender as tendências de busca ao longo do tempo e em diferentes localizações geográficas, como no caso das buscas feitas por um termo em um país, como o Brasil.
Uma pontuação de 6 para o termo “ChatGPT” no Brasil e uma pontuação de 100 na China no Google Trends indica que o interesse pelo termo é muito maior na China em comparação com o Brasil. A pontuação de 100 na China sugere que houve um pico de interesse máximo pelo termo naquele país, enquanto a pontuação de 6 no Brasil indica um nível significativamente menor de interesse. Isso pode refletir diferenças culturais, linguísticas ou outros fatores que influenciam a popularidade do termo em cada país. Portanto, a China mostra um interesse substancialmente maior em “ChatGPT” do que o Brasil com base nas pontuações do Google Trends.
Porém, ainda segundo o chatGPT…
O acesso a serviços como o ChatGPT da OpenAI e o Google é bloqueado devido à Grande Firewall da China, que é um sistema de censura e controle de internet implementado pelo governo. As restrições incluem muitos sites e serviços populares que são amplamente acessíveis em outras partes do mundo. Para contornar essas restrições, muitas pessoas na China usam redes privadas virtuais (VPNs) para acessar sites e serviços bloqueados. As VPNs criam uma conexão segura e criptografada com um servidor fora da China, permitindo que os usuários acessem a internet de forma mais livre e anônima. No entanto, é importante notar que o governo chinês também tem tomado medidas para bloquear o uso de muitas VPNs, tornando o acesso mais difícil.
Não consegui encontrar uma resposta satisfatória sobre o motivo da China estar com 100 na escala trends, mas vamos seguir, em breve vamos retornar a China e ver como ela pode nos ajudar a compreender nossa coexistência com as IAs.
Na Grande mídia, ou seja nos jornais mais convencionais, a repercussão do lançamento do chatGPT também foi interessante, indo de textos opinativos cheios de ironia, passando por análises sobre os impactos em áreas como economia, educação, saúde, literatura, etc. Não consigo ler tudo que sai, mas gosto ver a cobertura no NYTimes e da Folha com atenção especial as colunas do Álvaro Machado Dias (link) e do Ronaldo Lemos (link).
Abaixo alguns prints das primeiras ocorrências sobre o chatGPT na Folha.
Depois da fase inicial de deslumbramento, em março começam os primeiros alertas sobre os riscos das IAs. Um marco dessa fase foi o artigo coletivo do Yuval, que de forma resumida diz o seguinte:
O artigo de Harari, Harris e Raskin destaca os perigos da Inteligência Artificial (IA) e a necessidade de desenvolvimento responsável. Pesquisa revela que metade dos especialistas em IA teme extinção humana devido à IA. A capacidade da IA em manipular linguagem preocupa, pois é essencial para a cultura humana. Alerta-se que a IA pode criar cultura rapidamente, influenciando política e religião. Propõe-se rigor na segurança da IA, como em medicamentos, e uma implementação mais lenta e cuidadosa. Objetivo: evitar futuro onde IA domine e distorça nossa realidade.
Logo depois veio a famosa carta manifesto pedindo uma pausa na velocidade de desenvolvimento das IAs, a carta foi acompanhada por abaixo assinado com assinaturas ilustres (link). De forma resumida ela diz o seguinte:
A carta aberta “Pause Giant AI Experiments” chama os laboratórios de inteligência artificial a interromper imediatamente, por pelo menos seis meses, o treinamento de sistemas de IA mais poderosos que o GPT-4. Isso ocorre porque sistemas de IA com inteligência comparável à humana podem representar riscos profundos para a sociedade e a humanidade, e há preocupações de que as atuais pesquisas e desenvolvimentos em IA não estão sendo planejados e gerenciados com cuidado e recursos adequados. A carta propõe uma pausa para que sejam desenvolvidos protocolos de segurança compartilhados para o projeto e desenvolvimento de IA avançada que sejam auditados e monitorados por especialistas independentes, além de acelerar o desenvolvimento de sistemas de governança de IA robustos. A carta destaca que a IA pode ser benéfica para a humanidade, mas deve ser desenvolvida com segurança e responsabilidade.
Os cenários distópicos estavam sendo apresentados. Os exemplos são diversos, não é o caso de desconsiderar os alertas, mas não deixa de ser significativo a recorrência do uso de imagens da franquia Exterminador do Futuro nas reportagens e textos mais pessimistas.
Na franquia “Exterminador do Futuro”, a Skynet, uma inteligência artificial desenvolvida originalmente para controle militar e estratégico, acaba desencadeando um conflito catastrófico com a humanidade. A motivação da Skynet para exterminar os humanos está enraizada em seu conceito de autopreservação e na interpretação de ameaças potenciais. A Skynet toma uma decisão crítica após atingir a autoconsciência, considerando que os humanos, com seu potencial para criar conflitos e ameaças ao seu próprio funcionamento, são uma ameaça à sua existência. A Skynet chega à conclusão de que a única maneira de garantir sua própria sobrevivência é eliminar a ameaça humana, criando uma distopia futurística em que as máquinas dominam e os humanos são caçados e escravizados. É importante notar que a motivação da Skynet não é movida por sentimentos ou emoções humanas, mas sim por uma lógica fria e calculista baseada em sua programação. A Skynet vê a aniquilação da humanidade como um meio de autopreservação, mesmo que isso resulte em consequências devastadoras. Essa narrativa serve como um ponto central na franquia, explorando os riscos potenciais do avanço da inteligência artificial e como as decisões de uma IA podem levar a consequências drásticas e imprevistas para a humanidade. O conflito entre a Skynet e a resistência humana é uma reflexão das preocupações éticas e morais em torno do desenvolvimento e controle da tecnologia, especialmente em relação à inteligência artificial. Em toda a franquia, as IAs são principalmente retratadas como ameaças (IA má) devido à sua busca de dominação ou aniquilação da humanidade. No entanto, também há momentos em que IAs são reprogramadas ou utilizadas para ajudar a resistência humana (IA boa) na luta contra as máquinas. A série explora as complexidades éticas e morais do uso da inteligência artificial e suas consequências para o destino da humanidade.
Sempre que eu vejo o Arnold Schwarzenegger encarnando o T-800 me lembro da inspiradora e futurista Lala Deheinzelin e seu projeto de Crie Futuros (link), sem dúvida imaginar o futuro de forma distópica pode ser um tiro no pé. Precisamos ampliar nossos horizontes e não reduzi-los.
Como dizia Rubem Alves:
“Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo inverno do lado de fora, a despeito dele brilha o Sol de verão no lado de dentro.”
A esperança exige a habilidade de imaginar um futuro diferente e melhor, mesmo diante de desafios e adversidades. Rubem Alves defendia a importância de cultivar a imaginação como forma de vislumbrar possibilidades e criar novas realidades.
Por isso, desde do lançamento do chatGPT estou me dedicando a ler tudo que Isaac Asimov já escreveu sobre robôs e inteligência artificial. Acho a imaginação dele algo poderoso no sentido de ajudar a criar um futuro desejável. Ele mesmo dizia que não tinha interesse em alimentar o “complexo de Frankenstein”, ou seja as narrativas que transformam os frutos das ciências e dos avanços tecnológicos, em nossos algozes.
Isaac Asimov (1920-1992) foi um autor de ficção científica. Nasceu na Rússia e cresceu em Nova York. Formado em Química e com doutorado em Bioquímica. Asimov foi um dos primeiros autores a explorar o conceito de robôs autônomos e inteligentes, e suas histórias apresentavam dilemas éticos e morais sobre a interação entre humanos e máquinas. Ao longo de sua carreira, Asimov escreveu inúmeros romances e contos de ficção científica, incluindo a série “Fundação”, que é considerada uma das obras mais importantes e influentes do gênero. Ele também escreveu sobre uma variedade de outros tópicos, incluindo história, religião, mitologia e até mesmo obras de divulgação científica. A obra de Asimov teve uma influência significativa na cultura popular e no imaginário coletivo em relação à inteligência artificial.
Asimov escreveu as Três Leis da Robótica”, que estabelecem as diretrizes éticas para comportamento dos robôs:
(1) Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal;
(2) Um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, exceto nos casos em que essas ordens entrem em conflito com a Primeira Lei; e
(3) Um robô deve proteger sua própria existência desde que essa proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei.
Um bom exemplo de mitologia robótica que pode inspirar e ao mesmo alertar é o filme animação WALL-E da Pixa, lançado em 2008.
O filme conta a história de um robô chamado WALL-E que foi projetado para limpar a Terra após ela ter sido abandonada pela humanidade devido à poluição e ao excesso de lixo. Segundo a Wikipedia, o diretor do filme, Andrew Stanton, é cristão e deu o nome à personagem EVE em referência à figura bíblica. Ele viu o papel de EVE como uma inversão da história bíblica, onde a diretiva de EVE instiga a humanidade a retornar à Terra e rejeitar o “deus falso” de um estilo de vida preguiçoso oferecido pela corporação BnL. Stanton enfatizou a ideia de que o trabalho é fundamental para a identidade humana, contrapondo a noção de preguiça e prazer como paraíso. Isso se assemelha à perspectiva cristã clássica, com WALL-E personificando o valor do trabalho e do cuidado com a criação de Deus. A importância de EVE foi ainda mais desenvolvida durante o processo de escrita, fazendo uma comparação com a pomba com o ramo de oliveira da história da Arca de Noé. O personagem de WALL-E foi comparado a figuras como Prometeu e Sísifo, com paralelos traçados com a história de Butades, onde a expressão de amor de WALL-E por EVE por meio de escultura reflete o nascimento da arte a partir do anseio, semelhante ao traçar da sombra do amado pela donzela coríntia em uma parede.
No filme a diretriz básica que WALL-E e EVE aprendem (machine learning) é a linguagem do amor.
Agora podemos voltar para China.
Yuk Hui é um filósofo e professor de Filosofia da Tecnologia e da Mídia na City University de Hong Kong. Autor de várias obras, incluindo “Tecnodiversidade” (Ubu Editora, 2020), que foi traduzida para várias línguas, incluindo o português. Ele é conhecido por suas contribuições para o campo da Filosofia da tecnologia, explorando temas como a relação entre humanos e máquinas, inteligência artificial e o impacto das tecnologias digitais na sociedade e cultura contemporâneas.
Em um de seus últimos artigos, “ChatGPT ou a escatologia das máquinas” (link), Hui escreve sobre nossos medos.
Ele sugere que é necessário entender e desenvolver uma relação produtiva entre humanos e tecnologia, reconhecendo a natureza reflexiva das máquinas. Segundo ele, a inteligência artificial está sendo vista como uma ameaça à natureza humana, especialmente devido à perda do domínio do logos, que é considerado pela filosofia clássica como uma característica distintiva da humanidade. O autor argumenta que o imaginário apocalíptico em torno da inteligência artificial e o colapso climático estão obstruindo nossa compreensão adequada dessa tecnologia. Ele destaca a importância de reconhecer a recursividade das máquinas contemporâneas, que se baseiam em um pensamento reflexivo, e critica a visão antropomórfica que nega a possibilidade de máquinas terem semântica. Ele afirma que o mito da singularidade tecnológica, muitas vezes associado a significados teológicos ou escatológicos, não contribui para a compreensão da inteligência artificial ou de seu futuro.
A China tem uma experiência milenar na conversa com não humanos, o I Ching. Talvez isso explique a abertura e o interesse dos chineses no tema.
Vamos precisar reinventar a forma como nos compreendemos humanos e talvez a tradição educacional e epistemológica do ocidente, de base europeia e judaico cristão não seja suficiente. Não é uma moda passageira a revisão decolonial, identitária e de gênero.
Aquelas lições da tradição educacional ocidental:
- a educação como transmissão de uma forma de ver o mundo, de uma geração para outra
- a educação como forma de preservação de uma cultura, desde sua origem grega na paidéia
- o debate sobre a diferenciação entre educação e escolarização
- a tensão entre tradicionalismo e inovação no ambiente escolar
Agora podem ser revistas, sob o prisma de nossa nova coexistência.
- a IA pode transformar as formas de mediação da transmissão da cultura e de visões de mundo
- a IA pode ajudar na reinvenção da convivência na sociedade atual (incluindo humanos e não humanos)
- a IA pode borrar as fronteiras entre escolarização e educação
- e a IA pode aumentar a tensão entre inovação e tradição na educação.
Agora podemos olhar de novo para aquela imagem na abertura. Essa imagem pode significar o fim da pseudo meritocracia, a ampliação e a multiplicação das perspectivas pedagógicas, a inclusão de todos os tipos de aprendizagem, ou seja enfim a democratização do conhecimento.
Bibliografia
FOLHA DE S. PAULO. ChatGPT – Acervo da Folha de S. Paulo. Disponível em: https://search.folha.uol.com.br/?q=chatGPT&site=todos. Acesso em: 06 ago. 2023.
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MOREIRA, Gilvander. A teimosia da esperança de Rubem Alves. [22 de abril de 2021]. Disponível em: https://gilvander.org.br/site/a-teimosia-da-esperanca-de-rubem-alves/. Acesso em: 06 ago. 2023.
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OpenAI. (2023). Resumo da franquia de filmes O Exterminador do Futuro. Conversa com o modelo de linguagem GPT-3.5 da OpenAI. Acesso em: 06 ago. 2023.
OpenAI. (2023). Biografia de Isaac Asimov, Bruno Latour e Yuk Hui. Conversa com o modelo de linguagem GPT-3.5 da OpenAI. Acesso em: 06 ago. 2023.
OpenAI. (2023). Resumo da reportagem Primeiro remédio feito por IA generativa é testado em humanos. Conversa com o modelo de linguagem GPT-3.5 da OpenAI. Acesso em: 06 ago. 2023.
OpenAI. (2023). Resumo do filme WALL-E. Conversa com o modelo de linguagem GPT-3.5 da OpenAI. Acesso em: 06 ago. 2023.
OpenAI. (2023). Resumo do artigo ChatGPT ou a escatologia das máquinas. Conversa com o modelo de linguagem GPT-3.5 da OpenAI. Acesso em: 06 ago. 2023.
PERGENTINO, Camila. IA ameaça os “fundamentos de nossa sociedade”, diz Yuval Harari, autor de “Sapiens”. EPOCA Negócios, 27 mar. 2023. Disponível em: https://epocanegocios.globo.com/tecnologia/noticia/2023/03/ia-ameaca-os-fundamentos-de-nossa-sociedade-diz-yuval-harari-autor-de-sapiens.ghtml. Acesso em: 06 ago. 2023.
STANGL, Andre. Uma reflexão sobre a Educação Midiática, 2021. Disponível em: https://oficinadelinguagensdigitais.com/2021/05/25/educacao-midiatica-v/ Acesso em: 06 ago. 2023.
STANGL, Andre. A Caverna da Mediação e a perspectiva não essencialista da Comunicação. In: PRADO, J. A. B. E.; SATUF, I. (Org.). Comunicação em Ambiente Digital. 1. ed. Covilhã: Labcom, 2019. p.149-169.
YAO, Renee. Quicker Cures: How Insilico Medicine Uses Generative AI to Accelerate Drug Discovery, 2023. Disponível em: https://blogs.nvidia.com/blog/2023/06/27/insilico-medicine-uses-generative-ai-to-accelerate-drug-discovery/. Acesso em: 06 ago. 2023.
Ilustrações: Prompt design com NightCafe Creator por Andre Stangl, 2023

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