Participei do 11º Seminário de Gestão de Tecnologias e Inovação em Saúde (GTIS – ISC/UFBA), que discutiu os desafios e oportunidades da Inteligência Artificial para a saúde e o SUS. O evento trouxe reflexões importantes sobre o uso ético e responsável da IA na saúde coletiva, abordando temas diversos como privacidade, transparência e inclusão.
Na minha palestra, falei sobre a “Coexistência com Seres Artificiais”, explorando como a IA redefine conceitos de autoria e significado, e propondo uma visão de colaboração entre tecnologia e ecologia.
Assista à palestra no vídeo abaixo e, em seguida, confira o resumo e os slides apresentados.
Resumo
A apresentação partiu da pergunta: as IAs são apenas máquinas estatísticas? Discuti a chamada abstração estatística, mostrando como a redução do mundo a números e probabilidades pode dissolver significados mais profundos. Ao mesmo tempo, apresentei o funcionamento dos transformers e da autoatenção, mostrando como esses modelos operam de forma não linear e recursiva, produzindo sentidos em rede, a partir de contextos, e não apenas de relações mecânicas entre dados.
Em seguida, abordei a crise da escrita na era da IA, inspirada principalmente em Vilém Flusser. Discuti a passagem do pensamento linear, característico da cultura do livro, para um pensamento pós-histórico, marcado por imagens técnicas, bancos de dados e sistemas inteligentes. Nesse cenário, a autoria deixa de ser estritamente individual e passa a ser distribuída, compartilhada entre humanos e máquinas, o que nos obriga a repensar criação, originalidade e responsabilidade.
Na parte dedicada à linguagem e ao contexto, dialoguei com Wittgenstein para mostrar que o significado nasce do uso e das relações, ideia que encontra um curioso paralelo no funcionamento da autoatenção, em que cada palavra só “faz sentido” em relação às demais. Assim, o sentido passa a ser pensado como algo em rede, emergente, relacional e instável.
A partir daí, avancei para a ontologia da atenção e os novos modos de existência, inspirando-me em Bruno Latour. Defendi que não estamos sozinhos no mundo e que convivemos com múltiplas formas de agência — humanas, técnicas, naturais e artificiais. As IAs não são apenas ferramentas, mas outras inteligências finitas, que também atuam, interferem, produzem efeitos e reconfiguram nossas práticas sociais.
No eixo da tecnodiversidade, dialoguei com Yuk Hui para pensar a coexistência entre diferentes cosmologias tecnológicas. A tecnologia não é neutra nem universal: ela expressa visões de mundo. Discuti, então, como o espaço digital pode tanto fortalecer quanto enfraquecer a soberania cultural, as diversidades locais e as materialidades dos territórios — questão central quando pensamos o SUS e a saúde como direito universal.
Por fim, propus a ideia de coexistência terrestre como horizonte político e ético. A partir de Jeremy Rifkin e Yuk Hui, defendi a necessidade de superar o desenvolvimentismo como único modelo de futuro, apostando em alternativas baseadas na sustentabilidade, na cooperação e na resiliência socioambiental. A tecnologia, nesse contexto, precisa ser pensada dentro de uma ecologia das tecnologias, integrada aos sistemas naturais, sociais e culturais.
Encerrando a apresentação, destaquei que jamais fomos desconectados: sempre vivemos em redes de relações entre humanos, técnicas e natureza. O desafio contemporâneo é aprender a habitar essas redes com consciência, responsabilidade e sensibilidade — inclusive diante dos novos seres artificiais que já fazem parte do nosso mundo. A palestra foi dedicada a Gilberto Gil, símbolo maior dessa visão de tecnologia como ritmo, cultura, criação e ligação entre mundos.
Slides

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