Este texto foi elaborado a partir da transcriação da aula síncrona, cuja gravação foi processada inicialmente pelo aplicativo Transkriptor, gerando uma transcrição automática utilizada como base. A partir desse material, revisitei cada trecho com o apoio de modelos de linguagem configurados com engenharia de contexto específica para Saúde Digital, alinhada à abordagem adotada no componente curricular Introdução à Saúde Digital do Programa de Formação em Saúde Digital do ISC/UFBA. O texto também dialoga diretamente com os conteúdos e princípios apresentados no weblivreto CiberSaúde, que reúne leituras, vídeos, conceitos e discussões estruturantes sobre tecnologia, redes, cuidado e mediação. Assim, o que apresento aqui combina a fidelidade às falas, dúvidas e experiências trazidas pelos cursistas com uma reflexão ampliada sobre o campo da saúde digital, na perspectiva sociotécnica, ética e pedagógica que buscamos cultivar no curso.
Ficha Técnica
Aula remota: Introdução à Saúde Digital
Data: 22 set 2025 (Zoom)
Docente: Andre Stangl – Professor/Pesquisador Visitante ISC-UFBA
Mediação: Bruna Matos (ISC)
Curso: Especialização em Saúde Digital – Programa de Formação Avançada em Saúde Coletiva (ISC/UFBA)
Recursos: Zoom • Transkriptor • IA (ChatGPT 5.1 – Projetos)
Base conceitual: Weblivreto CiberSaúde (link)
Participantes: 100+ estudantes, tutores e profissionais do SUS
1. Começo da aula: presença, mediação e metapresencialidade
Desde o início da aula, fiz uma escolha metodológica que considero essencial: em vez de uma exposição tradicional, propus uma roda de conversa mediada no Zoom. Convidei todos a abrirem suas câmeras porque, para mim, o encontro digital não elimina a presença — ele a reinventa. Essa abertura inicial já traduz o que Naomar chama de metapresencialidade: estar junto, mesmo a distância, no cruzamento entre atenção, afeto, corpo e interface.
A aula, portanto, não tratou apenas de saúde digital; ela encenou a própria experiência de cuidado e educação em ecossistemas digitais.
2. O que é Saúde Digital? Um campo em constante construção
A primeira pergunta, feita por Bruna, tratava da definição de saúde digital. Expliquei que não existe — e talvez nem deva existir — um conceito fechado. A saúde digital não é um setor dentro da saúde, nem um pacote de ferramentas tecnológicas. Ela é uma condição ecológica da vida contemporânea, marcada pela presença contínua de redes, plataformas, dispositivos móveis, fluxos de dados e inteligências artificiais.
Assim como não falamos mais de “cultura digital” como um nicho, mas como o próprio tecido da vida social, também precisamos compreender que não existe mais saúde fora da digitalidade. Ela está no cuidado, na regulação, nas vigilâncias epidemiológicas, na clínica, na gestão, no autocuidado, na relação com o território e até nas disputas políticas e simbólicas sobre o que entendemos por saúde.
O ponto não é “usar tecnologia na saúde”.
O ponto é: como viver, cuidar e decidir em um mundo profundamente mediado pela técnica?
3. Tecnologias têm agência: o digital não é apenas ferramenta
Um dos eixos centrais da conversa foi a compreensão de que tecnologias não são neutras nem meros instrumentos. Elas participam da formação de práticas, percepções e relações. Esse entendimento se aproxima da Teoria Ator-Rede (Latour) e da filosofia da técnica (Simondon e Yuk Hui).
Na saúde, isso aparece quando:
- um algoritmo reorganiza prioridades de atendimento;
- um prontuário eletrônico muda o modo de olhar o paciente;
- uma plataforma de regulação redefine temporalidades;
- sensores corporais tornam o cuidado contínuo;
- um aplicativo municipal altera a relação do usuário com a atenção básica.
As tecnologias não servem apenas para “fazer algo”.
Elas transformam o que fazemos e como percebemos aquilo que fazemos.
4. Controle popular da tecnologia, cultura hacker e tecnodiversidade
Uma questão muito potente apareceu quando uma cursista perguntou se seria possível ampliar o controle popular sobre as tecnologias adotadas no SUS. Isso me permitiu trazer uma perspectiva que considero urgente:
Sim — é possível. E, mais que isso, é necessário.
Mas para isso precisamos de:
- educação digital para o uso e para a criação;
- apropriação crítica dos sistemas;
- compreensão dos fluxos de dados;
- modelos abertos e auditáveis;
- estímulo ao espírito hacker, entendido como ética colaborativa;
- e incentivo à tecnodiversidade (Yuk Hui), evitando dependências de modelos hegemônicos.
O SUS, para ser digital e democrático, precisa ser também coproduzido com trabalhadores, usuários, comunidades e territórios.
5. Qualificação digital: do acesso à autonomia
Ao longo da aula, vários participantes rememoraram iniciativas de inclusão digital do passado — Pontos de Cultura, telecentros, Casa Brasil. Expliquei que o desafio atual já não é mais garantir acesso: praticamente toda família tem um celular. O novo desafio é o letramento digital, isto é, a capacidade de interpretar, decidir, avaliar e agir criticamente no ambiente digital.
No SUS, isso é decisivo:
- saber usar não é o mesmo que entender;
- clicar não é o mesmo que participar;
- acessar uma plataforma não é o mesmo que exercer direitos.
Sem letramento digital, o cidadão se torna dependente de interfaces que não compreende — e isso limita sua autonomia, sua participação social e sua capacidade de reivindicação.
6. Ética, dados e cuidado: muito além das normas
Gabriel trouxe uma pergunta essencial sobre ética do monitoramento e dos dispositivos corporais. Aproveitei para distinguir ética de moral: ética não é o conjunto de regras de um conselho profissional; ética é um incômodo que nos faz questionar a norma.
Na Saúde Digital, isso implica discutir:
- quem controla os dados;
- quem decide o que é risco;
- se o monitoramento é escolha ou imposição;
- impactos em pessoas idosas ou vulneráveis que não compreendem termos de uso;
- e até a ética ambiental das tecnologias (energia, água, materiais).
Nenhuma tecnologia é “puramente benéfica” ou “puramente maléfica”.
É nossa forma de utilizá-la — social, política e institucionalmente — que define sua agência no cuidado.
7. Presença e cuidado: a afetividade mediada também cura
Um dos momentos mais fortes da noite foi a fala de um cursista que relatou experiências reais de cuidado durante a pandemia, oferecendo escuta e acolhimento por telefone a pessoas desesperadas. Aquilo me atravessou profundamente.
Disse algo que venho aprendendo há muitos anos:
Presença não é proximidade física.
Presença é atenção.
Há atendimentos presenciais que são completamente ausentes e teleconsultas profundamente cuidadosas. A questão não é o meio — é o vínculo, a escuta, o compromisso ético.
8. Gestão, fluxos e o cotidiano real das unidades
Os relatos dos profissionais foram muito marcantes: dificuldades de envio de dados, falhas de comunicação interna, horários desrespeitados, burocracias opacas, sobrecargas, mas também histórias de enorme criatividade e dedicação — como a reorganização de uma campanha inteira de vacinação via WhatsApp.
Esses exemplos reforçam que o digital não resolve sozinho nenhum problema estrutural.
Ele revela problemas da gestão,
amplifica boas práticas,
e condiciona o cuidado.
Saúde digital não é somente tecnologia: é trabalho vivo, cultura organizacional, comunicação interna e processos coletivos.
9. Participação social e visibilidade do SUS
Outro ponto que emergiu foi o papel das tecnologias na participação social. Ouvidorias, canais digitais, aplicativos, grupos comunitários e produção distribuída de informação podem fortalecer a defesa do SUS e combater narrativas distorcidas.
O digital pode — e deve — ser um instrumento de vigilância cidadã, de denúncia, de cuidado comunitário e de construção de redes solidárias.
10. Gargalos que não são técnicos — são civilizatórios
No fim da aula, Júlio César me perguntou o que falta para que a tecnologia funcione plenamente no SUS. E eu respondi com algo que considero fundamental:
Os principais gargalos não são tecnológicos.
São humanos, culturais e civilizatórios.
Faltam:
- confiança institucional;
- letramento digital;
- comunicação pública eficaz;
- cultura democrática;
- integração entre equipes e níveis de gestão;
- e espaços de escuta real.
A tecnologia opera dentro da cultura — e não o contrário.
Conclusão: Saúde Digital como prática ética e sociotécnica
Ao finalizar a aula, agradeci a cada fala. Cada relato expandiu minha compreensão do campo. Saí da aula com a sensação — cada vez mais forte — de que:
Saúde Digital não é sobre máquinas.
É sobre pessoas atravessadas por máquinas.
É sobre vínculos atravessados por redes.
É sobre futuros atravessados por decisões coletivas.
É, acima de tudo:
uma ética do cuidado em um mundo radicalmente mediado pela técnica.
E é exatamente isso que procuramos construir, juntos, no componente e no weblivreto CiberSaúde: uma visão ampliada, crítica, humana e tecnodiversa do que significa cuidar em ambientes digitais.
(versão revisada por Andre Stangl em novembro de 2025)

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