Participei do seminário “O jornalismo entre a sobrevivência e a relevância”, realizado no Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA), onde discutimos os desafios do jornalismo em meio à crise das esferas públicas digitais. O evento começou com a palestra de Rodrigo Mesquita e contou com três mesas: Mediação pública, algoritmos e governança democrática, com Virgílio Almeida, Demi Getschko e eu; Inteligência artificial no jornalismo, com Lúcia Santaella, Eun Yung Park e Magaly Prado; e Regulação e cidadania, com Eugênio Bucci, Luiz Fernando Martins Castro e Vitor Blotta. Foi um encontro intenso e necessário para pensar o futuro do jornalismo em um ambiente dominado por plataformas e algoritmos.
Abaixo está um roteiro geral da minha fala, organizado em eixos temáticos e com algumas variações possíveis. Não se trata de um texto definitivo, mas de um mapa das ideias que ainda pretendo desenvolver, articulando jornalismo, ecologia cognitiva, tecnologia, IAs e os limites do projeto moderno.
Roteiro provisório
1. Introdução – 2 minutos
- Contextualizar: jornalismo em crise, nova ecologia informacional, IA transformando mediações.
- Mas não se trata apenas de crise do jornalismo ou das redes: trata-se de uma mutação cognitiva profunda.
- Minha provocação: a crise atual revela os limites do projeto moderno — antropocêntrico, linear, centrado na escrita e na promessa de captura total da realidade.
2. O ideal moderno de jornalismo — 5 minutos
2.1 A herança iluminista
- Jornalismo como instituição racional, árbitro do real, mediador imparcial.
- Promessa moderna: um mundo ordenado, transparente, acessível pela escrita.
2.2 A autopercepção antropocêntrica
- Tudo organizado “para o humano”, a partir do humano.
- Supõe um único real, linear, estável.
2.3 A ilusão fundadora
- Jornalismo se alimenta da falácia do espelho do real, do “retrato fiel”, dos critérios de noticiabilidade.
- “O dono morde o cachorro” — atenção é o motor, tanto no jornalismo quanto nas redes.
3. A nova ecologia cognitiva – 6 minutos
3.1 Não-linearidade
- A esfera pública não se fragmentou — ela apenas deixou de ser linear.
- Estamos em um ambiente de coexistência entre humanos e não humanos (máquinas, sistemas, modelos).
3.2 Pós-história
- Não há mais um fluxo único, contínuo, teleológico.
- A simultaneidade digital cria um “tempo partilhado” mas não um espaço comum.
3.3 O fim da exclusividade humana
- O caminho político não está mais somente nas mãos da humanidade.
- IA e algoritmos participam da ecologia decisória — e precisamos repensar o que é público num cenário não antropocêntrico.
4. Jornalismo não desaparece, mas perde a centralidade – 4 minutos
- A centralidade moderna da imprensa era produto de um conjunto tecnológico-cultural: escrita + imprensa + Estado-nação.
- Esse tripé sustentou nacionalismos, consensos e “uma só versão” da esfera pública.
- Hoje vivemos o pós-nacionalismo territorializado: compartilhamos o tempo, mas não o espaço.
- Influenciadores locais, jornais de bairro, práticas territoriais — tudo isso volta a compor a mediação.
5. Linguagem, exclusão e periferia – 4 minutos
5.1 A escrita como tecnologia excludente
- Escrever foi uma das tecnologias mais excludentes da história — e segue como vaidade da elite letrada.
5.2 Participar da esfera pública fora da escrita
- O pixo como forma radical de disputar visibilidade: marcar o território = tomar a palavra.
5.3 O erro de “louvamos a ecologia cognitiva dos colonizadores”
- Persistimos lendo o mundo com lentes europeias, brancas, iluministas, do “último mundo”.
- O primeiro mundo é o dos povos originários.
6. Cosmopolítica, perspectivismo e recomposição do comum – 5 minutos
6.1 A diversidade narrativa não é o problema
- O conceito moderno de manipulação presume um “olhar privilegiado do real”.
- Mas se o real é múltiplo, a disputa não é qual narrativa está certa — é como vamos sobreviver.
6.2 Recuperar o comum
- O comum não é consenso: é negociação entre mundos.
- Culturas tradicionais já operavam coexistência entre humanos, animais, espíritos, plantas, territórios.
- O perspectivismo mostra que múltiplos mundos convivem sem relativismo imobilizante.
6.3 Se a ecologia cognitiva hoje se assemelha à oralidade…
- Então também multiplicamos nossa percepção do real.
- A oralidade produz mundos coexistentes, não centralizados.
7. As IAs mudam o jogo: não é mais jornalismo vs redes – 2 minutos
- A discussão “redes sociais x jornalismo” ficou pequena.
- A IA cria outro tipo de mediação: modelos aprendem mundos e devolvem mundos.
- A disputa não é de conteúdo, mas de formas de vida.
8. Conclusão — 2 minutos
- O jornalismo não volta à centralidade porque o próprio mundo deixou de ser centralizado.
- A tarefa não é restaurar um passado, mas participar da reconstrução do comum em uma ecologia cognitiva que inclui humanos, máquinas, territórios, tradições e múltiplas ontologias.
- O desafio é político, cosmopolítico: como conviver num mundo onde não estamos sozinhos no espaço?
- E onde a sobrevivência — não a verdade linear — precisa guiar nossas práticas de mediação.

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