No dia 3 de junho de 2026, participei do 1º Painel do Seminário Educação, Democracia e Direitos Humanos na Era da Inteligência Artificial, promovido pelo Instituto Anísio Teixeira (IAT), em Salvador.
A mesa reuniu a professora Maria Nazaré Tavares Zenaide, referência nacional na área de Educação em Direitos Humanos, e Iuri Rubim, Assessor Especial para IA na Educação da Secretaria da Educação do Estado da Bahia, em um diálogo sobre os desafios contemporâneos colocados pelas inteligências artificiais para a educação, a democracia, os direitos humanos e a formação cidadã.
Em minha apresentação, “Anísio Teixeira e os mestres de amanhã na era das IAs”, procurei retomar reflexões formuladas por Anísio Teixeira nos anos 1960 sobre os impactos das tecnologias e dos meios de comunicação na escola, mostrando como muitas de suas questões permanecem atuais diante da expansão da inteligência artificial. Discuti o papel do professor em um cenário em que o acesso à informação se torna cada vez mais automatizado, destacando a importância da mediação pedagógica, do pensamento crítico, da convivência e da formação integral dos estudantes.
O evento integrou as comemorações dos 43 anos do Instituto Anísio Teixeira e o lançamento do projeto IAT Sustentável, reunindo educadores, pesquisadores, gestores e estudantes para refletir sobre os impactos sociais, éticos, culturais e educacionais das tecnologias digitais na sociedade contemporânea.
Aviso
Abaixo segue um resumo estendido da palestra “Anísio Teixeira e os mestres de amanhã na era das IAs”, realizada no Instituto Anísio Teixeira (IAT), acompanhado dos slides utilizados na apresentação.
O texto foi produzido a partir da transcrição da gravação da palestra, posteriormente revisada, organizada e expandida com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial configuradas com contexto sobre o evento, os textos de Anísio Teixeira discutidos e os temas abordados durante a exposição. O objetivo não foi reproduzir literalmente a fala oral, mas transformá-la em um texto mais fluido e legível, preservando os argumentos centrais, os exemplos apresentados e as conexões conceituais desenvolvidas ao longo da apresentação.
As imagens conceituais que acompanham os slides também foram produzidas com o auxílio do novo modelo de geração de imagens do ChatGPT. Elas não têm caráter documental, mas interpretativo, buscando sintetizar visualmente ideias, tensões e conceitos discutidos na palestra, como as transformações do papel docente, os impactos das tecnologias de comunicação na educação e os desafios colocados pelas inteligências artificiais para a escola contemporânea.
Por essa razão, o texto deve ser entendido como uma reconstrução comentada e ampliada da palestra, e não como uma transcrição literal. Em alguns momentos, foram incorporados esclarecimentos, contextualizações históricas e conexões conceituais que estavam implícitas na fala original, buscando tornar o material mais útil para leitura posterior, estudo e circulação acadêmica.
resumo estendido
Na minha fala no IAT, procurei partir de uma pergunta que considero central para pensarmos a educação hoje: o que acontece com a escola quando a informação deixa de depender da escola?
Essa pergunta não é exatamente nova. Ela já aparece, de outra maneira, no texto Mestres de amanhã, de Anísio Teixeira, publicado em 1963. Naquele momento, Anísio estava pensando o impacto dos meios de comunicação — rádio, televisão, cinema, imprensa, materiais audiovisuais — sobre a escola e sobre o papel do professor. A escola deixava de ser o único lugar onde o estudante encontrava informações. O professor deixava de ser a fonte exclusiva do saber.
Hoje, com as inteligências artificiais generativas, essa questão volta com ainda mais força. Se antes o aluno podia buscar uma informação no rádio, na televisão, no jornal ou, mais recentemente, no Google, agora ele pode conversar com sistemas que explicam, resumem, escrevem, traduzem, organizam ideias, produzem imagens e simulam diálogos complexos. Isso muda profundamente o ambiente da aprendizagem.
Por isso, meu objetivo foi pensar a inteligência artificial não apenas como uma ferramenta nova, mas como parte de uma transformação mais ampla da cultura, da linguagem, da escola e da própria forma como organizamos o conhecimento.
1. O professor já não tem o monopólio da informação
Um dos pontos principais da minha fala foi mostrar que o professor já não ocupa — e talvez nunca mais volte a ocupar — o lugar de fonte exclusiva da informação.
Durante muito tempo, a escola foi organizada em torno da ideia de que o professor transmitia o conhecimento e o aluno recebia. Mas essa estrutura começou a se abalar quando a informação passou a circular por outros meios. Anísio Teixeira já estava atento a isso nos anos 1960. Ele percebeu que os novos meios de comunicação estavam criando uma crise no modelo tradicional do mestre.

Hoje, essa crise se aprofunda com a IA.
Eu lembrei que, há alguns anos, muitos professores tinham receio do Google. O professor dizia algo em sala, esquecia um detalhe, improvisava uma explicação, e o aluno podia checar rapidamente no celular. Isso já deslocava a autoridade docente. Com a IA, esse deslocamento é ainda mais intenso, porque o aluno não apenas encontra uma informação: ele dialoga com um sistema que organiza respostas, compara ideias e ajuda a produzir textos.
Mas eu não vejo isso apenas como ameaça. Pelo contrário. Acho que isso pode ser positivo, porque nos obriga, como professores, a sair um pouco do pedestal. O professor não precisa mais se apresentar como aquele que sabe tudo. Ele pode assumir outro lugar: o de alguém que tem experiência, que já percorreu certos caminhos, que sabe orientar, problematizar, contextualizar e ajudar os alunos a construírem seus próprios percursos.
A autoridade do professor não desaparece. Ela muda de natureza.
O professor deixa de ser apenas transmissor de conteúdos e passa a ser mediador, orientador, curador, provocador e organizador de experiências de aprendizagem.
2. A escola como espaço de experiência e convivência
Outro ponto que procurei destacar foi a importância da experiência.
Esse é um tema muito forte em Anísio Teixeira e também em John Dewey, autor que influenciou profundamente o pensamento de Anísio. A educação não é apenas transmissão de informação. Ela é experiência compartilhada. A escola é um espaço de convivência, experimentação, diálogo, conflito, descoberta e formação.
Isso é ainda mais importante na era das IAs.
Se uma IA pode resumir um texto, explicar um conceito ou gerar uma resposta, então a escola precisa se perguntar: o que ela oferece que não se reduz a isso?
A resposta, para mim, passa pela experiência pedagógica. A escola pode ajudar o estudante a transformar informação em conhecimento, e conhecimento em formação. Pode ajudar a perguntar melhor, comparar respostas, identificar simplificações, perceber ausências, relacionar conteúdos com a vida concreta e com o contexto social.
Por exemplo: um aluno pode pedir a uma IA um resumo sobre democracia. A IA provavelmente dará uma resposta organizada. Mas cabe ao professor perguntar: que ideia de democracia apareceu ali? Que conflitos foram apagados? Que experiências locais podemos relacionar com esse tema? Como isso se conecta à participação dos estudantes, à escola, às redes sociais, ao território onde vivem?
A IA pode entregar informação. Mas a mediação pedagógica transforma essa informação em reflexão.
3. Minha experiência com IA: co-leitura, coescrita e co-organização
Na palestra, também falei um pouco da minha própria experiência com inteligência artificial.
Desde dezembro de 2022, quando comecei a experimentar o ChatGPT, passei a incorporar a IA ao meu trabalho intelectual, pedagógico e profissional. Tenho usado IA para co-leitura, coescrita, organização de ideias, preparação de cursos, produção de colunas e elaboração de materiais didáticos.
Eu não vejo essa relação como simples uso de uma ferramenta. Vejo como uma experiência de interlocução. É claro que a IA erra, simplifica, inventa e precisa ser permanentemente revisada. Mas, quando usada com cuidado, ela pode ajudar a organizar o pensamento, testar formulações, produzir sínteses iniciais e abrir caminhos de investigação.
Na própria preparação da palestra, por exemplo, usei a IA para ler o texto Mestres de amanhã, de Anísio Teixeira, resumir suas ideias e produzir uma imagem conceitual. Isso não substitui a minha leitura crítica. Mas cria uma camada de apoio: uma primeira organização do material, que depois eu posso revisar, corrigir e aprofundar.
A IA, nesse sentido, não é autora soberana da interpretação. Ela é uma parceira de trabalho. O julgamento, a responsabilidade e a direção continuam sendo humanos, pedagógicos e situados.
4. Eu não gosto de dizer que “uso” IA
Um dos pontos conceituais mais importantes da minha fala foi dizer que eu tenho evitado a expressão “usar IA”.
Eu não acho que a IA seja apenas uma ferramenta. Quando digo que “uso” uma ferramenta, imagino algo externo a mim, que pego, aplico e depois deixo de lado. Mas a IA está se tornando algo mais profundo. Ela interfere na forma como lemos, escrevemos, perguntamos, pesquisamos, organizamos arquivos, planejamos aulas e produzimos conhecimento.
Por isso, prefiro dizer que a IA faz parte de uma nova ecologia cognitiva.
Essa expressão ajuda a entender que não estamos apenas diante de um instrumento novo, mas de um novo ambiente de pensamento. Uma ecologia cognitiva é um ambiente no qual a inteligência se organiza. A oralidade foi uma ecologia cognitiva. A escrita foi outra. A imprensa criou outra. Os meios elétricos e audiovisuais criaram outra. O digital criou outra. Agora, a IA inaugura uma nova etapa.
Nesse ponto, trouxe McLuhan para a conversa. McLuhan nos ajuda a perceber que os meios não apenas carregam conteúdos. Eles reorganizam a percepção, o tempo, a memória, a atenção e a vida social. A famosa ideia de que “o meio é a mensagem” aponta justamente para isso: não basta olhar o conteúdo que circula em uma tecnologia; é preciso perceber como essa tecnologia muda o ambiente no qual pensamos e vivemos.
Usei também a metáfora do aquário. Muitas vezes estamos como peixes dentro da água, sem perceber a água. Estamos tão imersos em certas tecnologias que deixamos de notar como elas moldam nossa percepção. Pensar a IA como ecologia cognitiva é tentar perceber essa água em que estamos mergulhados.

5. Da oralidade à IA: uma história das formas de conhecimento
Para explicar essa ideia, procurei fazer uma breve passagem histórica.
Antes da escrita, muitas culturas organizavam o conhecimento pela oralidade. A memória era preservada em cantos, narrativas, ritos, rodas de conversa, performances e experiências compartilhadas. A fala era uma forma central de organizar o mundo.
Com a escrita, surge outra forma de memória. O conhecimento pode ser registrado, arquivado, deslocado no tempo e no espaço. A escrita muda a relação com a palavra, com a autoridade e com a tradição.
Depois, com a imprensa, essa transformação se intensifica. A produção de livros em larga escala ajuda a reorganizar a escola, a ciência, as leis, a religião, a política e a própria ideia moderna de conhecimento. A imprensa favorece uma forma mais linear, sequencial e classificatória de organizar o mundo.
Com os meios elétricos, depois com o digital e agora com a IA, entramos em novas formas de simultaneidade, conexão e recombinação. A IA é particularmente interessante porque ela recupera algo da oralidade — a conversa, a resposta imediata, a interação — mas faz isso dentro de uma infraestrutura digital e algorítmica.
É como se o oral voltasse pelo digital, mas reorganizado por modelos computacionais.
Isso muda muito a educação, porque a aprendizagem passa a acontecer em um ambiente no qual texto, fala, imagem, som, dados e interação conversacional se misturam.
6. A importância do contexto
Outro ponto que destaquei foi a importância do contexto.
Muita gente tem uma experiência ruim com IA porque faz perguntas muito genéricas e recebe respostas também genéricas. A IA, quando não recebe contexto, tende a responder a partir de uma perspectiva abstrata, universalizante, média. Mas a educação não acontece no abstrato. Ela acontece em contextos concretos: uma escola, uma turma, uma cidade, uma cultura, uma história, um território.
Por isso, eu disse que precisamos “educar” a IA. Quando oferecemos contexto, referências, objetivos e limites, a IA começa a responder de forma mais próxima das nossas necessidades. E, nesse processo, também somos educados por ela, porque passamos a formular melhor nossas perguntas, explicitar nossos critérios e organizar melhor nossos objetivos.
Um exemplo simples: não é a mesma coisa pedir “faça uma atividade sobre inteligência artificial” e pedir “faça uma atividade introdutória sobre inteligência artificial para professores da rede pública da Bahia, considerando desigualdades de acesso, cultura digital dos estudantes e uso crítico de plataformas”.
A segunda pergunta é muito mais pedagógica, porque situa a tecnologia em um contexto.
Por isso, penso que a IA pode fortalecer uma pedagogia de contexto, desde que não seja usada de forma automática. O desafio não é apenas perguntar “qual IA vamos usar?”, mas: com que finalidade, com que contexto, com que valores e a serviço de qual projeto educativo?
7. IA, Big Techs e soberania digital
Na palestra e no debate, também abordei a questão política da IA.
Hoje, as plataformas mais conhecidas de inteligência artificial estão ligadas a grandes empresas de tecnologia. Isso cria problemas reais: concentração de poder, dependência tecnológica, coleta de dados, vigilância, modulação algorítmica e perda de soberania digital.
Mas eu não acho que a resposta deva ser simplesmente rejeitar a tecnologia. É preciso compreender seus riscos, mas também disputar seus sentidos. A IA não nasceu apenas das Big Techs. Ela é resultado de décadas de pesquisa em matemática, computação, filosofia, linguística, cibernética e ciência cognitiva. O fato de algumas empresas hoje oferecerem esses sistemas em escala global não significa que esse seja o único futuro possível.
Defendi, então, a necessidade de apropriação tecnológica. Precisamos aprender como essas tecnologias funcionam, abrir o capô, desmontar, experimentar, criar modelos próprios, compartilhar conhecimento, desenvolver IAs especializadas e pensar usos públicos, educacionais e socialmente orientados.
Nesse sentido, a IA pode e deve ser discutida como bem público. Não podemos aceitar passivamente que uma tecnologia tão importante fique concentrada nas mãos de poucos grupos privados.
Para a educação, isso é decisivo. Escolas, universidades, institutos públicos e governos precisam pensar políticas próprias de IA, com proteção de dados, transparência, finalidade pedagógica e compromisso social.
8. Tecnodiversidade: não existe uma única tecnologia possível
Outro conceito importante que trouxe foi o de tecnodiversidade, associado ao filósofo Yuk Hui.
A ideia é questionar o mito de que existe apenas uma tecnologia universal, neutra e inevitável. Muitas vezes pensamos que tecnologia é uma coisa só: o modelo criado pelas grandes empresas, pelos países centrais, pelo mercado global. Mas diferentes culturas sempre desenvolveram diferentes técnicas para viver, cozinhar, plantar, cuidar, medir o tempo, construir casas, transmitir saberes e se relacionar com a natureza.
Por que, então, aceitaríamos que só existe uma forma possível de inteligência artificial?
A tecnodiversidade nos ajuda a perguntar: que IA faria sentido para uma escola pública baiana? Que IA faria sentido para comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas, periféricas? Que dados, línguas, memórias, territórios e valores deveriam orientar essas tecnologias?
Essa discussão é fundamental porque nos permite sair da posição de consumidores passivos de plataformas. Podemos pensar a IA como campo de disputa cultural, política e pedagógica.
9. Reapropriação tecnológica: o exemplo do gravador de Juruna
No debate, quando surgiu a questão da soberania digital, lembrei o exemplo do cacique Juruna e seu gravador.
Juruna passou a levar um gravador para reuniões com autoridades porque, em sua comunidade, a palavra dada tinha valor de compromisso. Mas, nas negociações com representantes do Estado, muitas promessas se perdiam. O gravador, então, tornou-se uma forma de registrar a fala dos políticos e cobrar o que havia sido prometido.
Esse exemplo é muito forte porque mostra que uma tecnologia pode ser reapropriada. O gravador não foi criado para aquele uso específico, mas Juruna o deslocou de seu contexto original e o transformou em instrumento político.
Acho que podemos pensar algo parecido com a IA. É claro que ela nasce hoje cercada por interesses econômicos, disputas geopolíticas e riscos de vigilância. Mas isso não significa que seus usos estejam totalmente definidos. Educadores, comunidades, instituições públicas e movimentos sociais podem disputar esses usos.
A pergunta não deve ser apenas: devemos aceitar ou rejeitar a IA?
A pergunta deve ser: quem controla essa tecnologia? Com que finalidade? Com quais dados? Para beneficiar quem? E como podemos subverter usos predatórios para construir usos educativos, públicos e emancipatórios?
10. Privacidade, vigilância e sociedade de plataformas
Também discuti a questão da privacidade.
Vivemos em uma sociedade de plataformas, na qual nossas ações são constantemente monitoradas, registradas, analisadas e moduladas por algoritmos. Isso afeta a escola, os estudantes, os professores e a vida social como um todo.
Na resposta ao debate, mencionei o exemplo da China, onde há experiências urbanas com altíssimo controle tecnológico, grande capacidade de vigilância e, em alguns casos, redução da violência. Mas isso vem acompanhado de perda intensa de privacidade. A questão que coloquei foi: queremos abrir mão da privacidade em nome da segurança?
Esse não é um debate simples.
Ao mesmo tempo, também precisamos reconhecer que muitas vezes abrimos mão da privacidade voluntariamente. Publicamos nossa rotina, nossas opiniões, nossas imagens, nossos deslocamentos e nossas preferências nas redes sociais. Participamos de uma cultura da exposição permanente.
Por isso, penso que a ideia de privacidade precisa ser recuperada e ressignificada. Talvez não se trate apenas de defender uma privacidade individualista, típica do sujeito moderno isolado. Podemos aprender com comunidades tradicionais outras formas de pensar o comum, o coletivo, o cuidado com a palavra, a memória e os vínculos.
A soberania digital, nesse sentido, não é apenas técnica. Ela é também cultural, ética e comunitária.
11. O desafio dos educadores
Ao final, procurei deixar uma provocação: não temos como simplesmente ignorar a IA.
Ela é assustadora, rápida, instável e difícil de compreender. Mas outras tecnologias também produziram crises profundas. A escrita mudou a memória. A imprensa abalou o controle religioso e político sobre os textos. Os meios de comunicação de massa transformaram a cultura escolar. O digital alterou a atenção, a sociabilidade e a produção de conhecimento.
Agora, a IA nos coloca diante de outra virada.
Como educadores, precisamos fazer essa travessia para ajudar nossos alunos a atravessarem também. Isso não significa aderir de forma ingênua às plataformas. Também não significa rejeitar tudo por medo. Significa estudar, experimentar, criticar, contextualizar e disputar os sentidos dessa tecnologia.
O mestre de amanhã, na era das IAs, não é um professor substituído pela máquina. É um professor que compreende que a informação circula por muitos meios e que sua função passa a ser ainda mais importante: ajudar os estudantes a organizar, interpretar, problematizar e humanizar essa relação com o conhecimento.
Síntese final
Em síntese, minha fala procurou defender que a IA deve ser compreendida como parte de uma transformação histórica dos modos de conhecer.
Anísio Teixeira nos ajuda a perceber que a crise do professor transmissor não começou agora. Ela já estava presente quando os meios de comunicação passaram a disputar com a escola o papel de transmissão da cultura.
McLuhan nos ajuda a entender que os meios não apenas transportam conteúdos; eles reorganizam a percepção, a experiência e a vida social.
Yuk Hui nos ajuda a ampliar a discussão, mostrando que não existe uma única tecnologia possível. Podemos pensar em tecnodiversidade, apropriações locais, cosmotécnicas e formas situadas de construir tecnologias.
A partir disso, minha posição é tentar escapar de dois extremos: nem medo paralisante, nem entusiasmo ingênuo.
A IA traz riscos reais: vigilância, dependência de plataformas, concentração de poder, perda de privacidade e padronização cultural. Mas também abre possibilidades importantes: co-leitura, coescrita, organização do conhecimento, personalização contextualizada, criação de materiais pedagógicos e ampliação das experiências de aprendizagem.
O desafio para nós, educadores, é assumir a IA como tema pedagógico, político e cultural. Não basta perguntar como usar IA na escola. Precisamos perguntar que educação queremos construir com ela, contra ela, apesar dela e para além dela.

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