Além do código: antropofagia, desejo e cosmotécnica tropical

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Uma resposta ao ensaio “Hackeamos a Meta?”, de Camila Lá

Camila, antes de tudo, obrigado pelo ensaio e pela generosidade de compartilhar uma reflexão tão instigante. Seu texto tem o mérito de recuperar uma dimensão importante da cultura hacker brasileira e, ao mesmo tempo, nos provocar a pensar os limites da nossa relação com as grandes plataformas digitais. Especialmente quando nos convida a olhar para a experiência de Gilberto Gil, da Tropicália e da antropofagia como possibilidades de reinvenção política e cultural.

Gostaria de continuar essa conversa a partir de uma pequena discordância, que talvez seja também uma oportunidade de ampliar sua hipótese.

Você afirma que não hackeamos a Meta, apenas batemos a meta dela. Concordo que a mobilização digital das eleições de 2026 alimentou os sistemas de engajamento, extração de dados e monetização das plataformas. Mas será que isso é suficiente para concluir que não houve nenhum hackeamento?

Minha dúvida começa justamente com Gilberto Gil.

O ministro que não precisava programar

Quando Gil declarou, no Fórum Social Mundial de 2005, que era um “hacker em espírito e vontade”, não estava reivindicando suas habilidades como programador. Estava propondo uma compreensão cultural e política da atitude hacker.

Gil era, antes de tudo, um tropicalista. Sua trajetória artística havia sido construída pela experimentação, pelo deslocamento de sentidos e pela apropriação criativa de linguagens. A Tropicália não rejeitou a indústria cultural, a televisão, a guitarra elétrica ou a música pop internacional. Entrou nesses ambientes e os transformou por dentro.

Não foi necessário controlar o código técnico da televisão para produzir uma ruptura na experiência cultural que ela organizava.

Os tropicalistas se apropriaram de dispositivos da indústria cultural para produzir uma diferença que não estava inteiramente prevista em sua racionalidade dominante. Não escaparam das contradições comerciais desses sistemas, mas tampouco se limitaram a reproduzi-los.

Essa experiência me parece essencial para compreendermos a antropofagia como uma forma de hacking.

Ao recuperar Oswald de Andrade, Gil nos ajuda a pensar a apropriação tecnológica para além da alternativa entre submissão e rejeição. A antropofagia não consiste simplesmente em consumir o outro, mas em incorporá-lo criticamente, transformá-lo e produzir algo diferente.

O mais interessante é que Gil levou essa sensibilidade para o Ministério da Cultura. Os Pontos de Cultura, a defesa do software livre e as experiências de participação digital foram tentativas de transformar uma imaginação artística em práticas institucionais.

Nesse sentido, o ministro hacker não precisava escrever códigos computacionais para intervir nas regras de funcionamento de uma instituição. Sua experiência mostrou que instituições, práticas culturais e relações de poder também podem ser transformadas.

Aliás, sua própria tese de doutorado, Camila, recupera essa dimensão mais ampla da cultura hacker e reconhece a força da reinvenção antropofágica brasileira.

Talvez a questão não seja estabelecer o acesso ao código como condição para hackear, mas compreender quais códigos estão sendo transformados em cada experiência.

A política dos afetos e o código invisível

A mobilização organizada por André Janones durante as eleições acrescenta outra dimensão ao problema.

Janones, que já falou publicamente sobre a importância da psicanálise em sua vida, parece ter compreendido intuitivamente algo decisivo para a comunicação política contemporânea: as pessoas não participam das redes apenas porque recebem informações. Participam porque desejam, temem, esperam, identificam-se e procuram reconhecimento.

O Exército do Lula não foi apenas uma operação de distribuição de conteúdos. Foi também uma tentativa de produzir um sentimento coletivo de participação.

A convocação permanente, a urgência, as tarefas compartilhadas, o entusiasmo e a percepção de fazer parte de algo maior constituíram uma experiência afetiva que ultrapassava a racionalidade instrumental de cada postagem.

A psicanálise, especialmente a tradição lacaniana, oferece caminhos interessantes para pensar esse fenômeno. Não porque possamos reduzir a mobilização política a um mecanismo inconsciente universal, mas porque ela nos lembra que a relação dos sujeitos com o mundo não é completamente consciente ou transparente.

Uma comunidade não se organiza apenas em torno de argumentos. Também compartilha identificações, fantasias, medos, expectativas e formas de reconhecimento.

A polarização afetiva contemporânea não pode ser inteiramente compreendida como uma disputa entre informações verdadeiras e falsas. Ela envolve maneiras diferentes de experimentar a realidade e de reconhecer quem pertence ou não a determinado mundo político.

Isso não significa que somente a psicanálise consiga explicar esses processos. A antropologia, a psicologia política e as teorias dos afetos também oferecem contribuições fundamentais. Mas a presença do inconsciente introduz uma dificuldade importante para certa interpretação da cultura hacker: conhecer conscientemente as regras de um sistema não significa dominar todas as condições de sua transformação.

O código computacional é uma dimensão fundamental da plataforma, mas não esgota os processos de significação e subjetivação que acontecem nela.

Os algoritmos organizam a circulação da atenção, mas não produzem sozinhos os sentidos que as pessoas atribuem à própria experiência de estar conectadas.

Há um circuito de retroalimentação entre arquitetura técnica, práticas culturais, desejos e formas coletivas de identificação.

Talvez seja justamente nesse circuito que determinadas experiências de hacking cultural se tornem possíveis.

A direita já havia percebido isso

A direita brasileira oferece um exemplo importante dessa transformação.

O bolsonarismo não precisou inventar o WhatsApp nem modificar seu código-fonte para participar da constituição de uma nova cultura política digital.

A experiência de 2018 mostrou como grupos de mensagens, vídeos, imagens, memes e redes de confiança podiam reorganizar a participação política. Estar conectado passou a significar, para determinados grupos, pertencer a uma comunidade, defender uma identidade, reconhecer ameaças e compartilhar uma visão de mundo.

O aplicativo continuava sendo o mesmo, mas sua experiência social havia se transformado.

Isso não significa que o bolsonarismo tenha produzido uma cosmotécnica alternativa ou emancipatória. Pelo contrário, suas práticas podem ser interpretadas também como uma intensificação das dinâmicas de antagonismo, aceleração e captura da atenção que caracterizam as plataformas comerciais.

Mas o exemplo revela algo importante: podemos transformar profundamente a experiência subjetiva de uma tecnologia sem modificar sua infraestrutura computacional.

E podemos fazê-lo de maneiras politicamente muito diferentes.

A mobilização de Janones em 2026 parece ter procurado disputar parte desse território afetivo. Não seria correto equiparar automaticamente os dois movimentos, suas estratégias ou seus efeitos. Mas ambos nos obrigam a reconhecer que a política digital envolve a constituição de comunidades de sentido, e não apenas a competição por alcance.

Aqui aparece uma pergunta que considero decisiva: quando uma coletividade transforma sua maneira de perceber, desejar e participar politicamente por meio de uma plataforma, não estaria também transformando, ao menos parcialmente, o funcionamento social dessa tecnologia?

Talvez sim. Mas isso ainda não responde se essa transformação produz autonomia.

Uma mobilização pode reorganizar o desejo coletivo e continuar subordinada à economia da atenção. Pode até fortalecer a racionalidade dominante da plataforma.

Por isso, precisamos distinguir duas operações: mobilizar afetos e transformar as condições sociotécnicas nas quais esses afetos são produzidos.

Da tecnofagia à cosmotécnica tropical

É nesse ponto que gostaria de aproximar seu conceito de tecnofagia da reflexão que venho desenvolvendo sobre uma possível cosmotécnica tropical.

Em novembro de 2025, durante um encontro de filosofia na UFBA, apresentei uma primeira formulação dessa hipótese, inspirada principalmente na obra de Yuk Hui e em diálogo com a antropofagia, a Tropicália e as ontologias ameríndias.

Hui questiona a ideia de que exista uma única trajetória universal da tecnologia. Sua noção de cosmotécnica procura compreender como as atividades técnicas se articulam com diferentes ordens morais e concepções de mundo.

Uma tecnologia não é apenas um instrumento disponível para qualquer finalidade. Ela participa de uma maneira de organizar o tempo, o conhecimento, as relações sociais, a natureza e a própria existência.

Isso muda a pergunta que fazemos às plataformas.

Em vez de perguntar somente quem controla os algoritmos ou como podemos utilizá-los de maneira mais eficiente, precisamos perguntar que formas de vida estão sendo produzidas por esses ambientes.

E, principalmente, que outras formas de vida podemos inventar.

A tecnofagia, conceito trabalhado por Giselle Beiguelman em diálogo com a antropofagia, pode ganhar aqui uma dimensão cosmotécnica.

Não se trataria apenas de devorar tecnologias estrangeiras para produzir novas expressões culturais. Poderíamos pensar uma devoração capaz de transformar as próprias condições pelas quais uma tecnologia adquire sentido em determinada comunidade.

Uma espécie de reescrita coletiva dos códigos culturais, afetivos e cosmológicos que organizam nossa existência técnica.

A expressão é metafórica, naturalmente. Não existe um código cosmotécnico que possa ser simplesmente aberto num editor de programação. Estamos falando de processos históricos, simbólicos, materiais e institucionais que se transformam reciprocamente.

Mas a metáfora ajuda a perceber o alcance da questão.

Talvez a potência mais radical da tecnofagia esteja na capacidade coletiva de imaginar e produzir maneiras de ser digitalmente diferentes.

Não apenas produzir conteúdos diferentes. Nem somente desenvolver aplicativos nacionais ou instalar infraestruturas próprias. Mas transformar nossa relação com a atenção, com o conhecimento, com os outros e com os agentes não humanos que participam de nossa existência.

Nesse horizonte, Gilberto Gil volta a ser uma referência fundamental.

Sua experiência reúne uma sensibilidade artística que questiona a técnica moderna, uma prática antropofágica de apropriação cultural e a tentativa de materializar essas intuições em políticas públicas.

Os Pontos de Cultura foram especialmente relevantes porque partiram do reconhecimento de experiências culturais já existentes. Em vez de definir centralmente tudo aquilo que as comunidades deveriam produzir, procuraram fortalecer suas capacidades de criação.

É uma diferença importante: a tecnologia deixa de ser apenas aquilo que chega de fora para modernizar uma comunidade e passa a integrar processos locais de invenção e autonomia.

A invenção de outros mundos técnicos

Há, contudo, um cuidado filosófico importante.

Se transformarmos a psicanálise lacaniana numa explicação universal do desejo, ou a cultura hacker numa categoria aplicável a toda forma de criatividade humana, corremos o risco de repetir a universalização que Yuk Hui procura questionar.

As cosmologias indígenas e afro-brasileiras, por exemplo, podem conceber relações entre subjetividade, território, ancestralidade, técnica e agentes não humanos que não cabem inteiramente nas categorias modernas do sujeito individual.

A cosmotécnica tropical que proponho não pretende estabelecer uma essência tecnológica brasileira, muito menos reduzir essa pluralidade à identidade nacional.

O tropical, aqui, não é uma identidade fixa. É uma abertura à multiplicidade das experiências que coexistem em nossos territórios.

Há uma imagem que utilizo frequentemente para pensar esse deslocamento: por que não perguntar à onça?

A pergunta, inspirada no diálogo entre perspectivismo ameríndio e filosofia da técnica, coloca em questão nossa dificuldade de reconhecer outras formas de agência e produção de conhecimento.

Quando um sistema digital transforma um território, uma floresta ou um animal exclusivamente em dados disponíveis para classificação, precisamos perguntar não apenas como esses dados são processados, mas quais relações com o mundo foram excluídas dessa operação.

Uma cosmotécnica tropical exigiria reconhecer que outras ontologias também podem orientar nossa relação com tecnologias contemporâneas.

Isso implica pensar soberania não apenas como controle de servidores, códigos e infraestruturas, mas também como capacidade de participar da definição dos próprios critérios pelos quais produzimos conhecimento e organizamos nossa existência.

Nesse sentido, concordo inteiramente com sua defesa da transparência algorítmica, das auditorias independentes e da regulação democrática.

Mas acrescentaria que abrir o código não garante, por si só, a abertura dos mundos possíveis.

Um sistema de código aberto pode reproduzir a mesma racionalidade econômica, os mesmos pressupostos epistemológicos e as mesmas relações de exploração que pretendíamos superar.

A soberania digital precisa, portanto, de uma dimensão cultural e cosmotécnica. Sem ela, corremos o risco de conquistar autonomia sobre as máquinas e continuar dependentes das concepções de mundo que orientaram sua criação.

Afinal, hackeamos a Meta?

Talvez a resposta dependa do que estamos dispostos a reconhecer como transformação.

Se hackear significa modificar diretamente o código computacional de uma plataforma, certamente não hackeamos a Meta.

Se significa produzir apropriações culturais e políticas capazes de deslocar os usos previstos de um sistema, talvez tenhamos experimentado algumas formas de hacking.

Mas, se a pergunta é sobre a possibilidade de transformar as condições de nossa existência digital, a resposta permanece em aberto.

O Exército do Lula demonstrou uma capacidade de mobilização que merece ser estudada. A experiência da direita brasileira também mostrou como as plataformas podem participar da constituição de imaginários políticos duradouros.

Nenhuma dessas experiências, entretanto, garante por si só a emergência de outras cosmotécnicas.

A transformação mais profunda talvez comece quando deixamos de disputar apenas a atenção dentro das plataformas e passamos a questionar por que a atenção precisa ser organizada dessa maneira.

Quando o objetivo deixa de ser simplesmente vencer o algoritmo e passa a ser inventar outras relações com a tecnologia, com o conhecimento e com a vida coletiva.

É por isso que considero tão fértil recuperar Gilberto Gil e a antropofagia nesse debate.

O tropicalismo não esperou controlar a televisão para transformar a cultura televisiva. Também não precisou rejeitar a indústria fonográfica para questionar os limites da música popular.

Entrou, misturou, deslocou e inventou.

Sua força não esteve em escapar completamente dos sistemas existentes, mas em demonstrar que eles não esgotavam as possibilidades de criação.

Talvez possamos aprender algo com essa experiência diante das plataformas e das inteligências artificiais.

A tecnofagia, pensada a partir de uma cosmotécnica tropical, não seria apenas uma maneira de hackear tecnologias. Seria uma abertura à transformação das relações entre técnica, desejo e mundo.

Isso não substitui a luta pela abertura do código, pela regulação ou pela democratização das infraestruturas. Ao contrário, dá a essas lutas um horizonte mais amplo.

Camila termina seu ensaio lembrando que somos gente. Concordo. E talvez a antropofagia nos convide a acrescentar que somos gente de muitas maneiras, habitando diferentes mundos, produzindo diferentes técnicas e inventando formas imprevisíveis de coexistência.

Por isso, gostaria de devolver sua provocação com outra pergunta:

E se a transformação mais radical não for hackear a Meta, mas deixar de acreditar que a forma de existência digital oferecida por ela é a única possível?

Talvez a experiência mais interessante de hackeamento não seja apenas abrir o código da máquina.

Seja também abrir, coletivamente, a possibilidade de outros mundos.


Referências e diálogos

  • CAMILA LÁ. Hackeamos a Meta? Ethos hacker e soberania simbólica a partir do Brasil. Substack, 2026.
  • FARIAS, Camila. Que vírus é esse? Reflexos da cultura hacker na vida política brasileira. Tese de doutorado, UFBA, 2022.
  • GIL, Gilberto. Declaração no Fórum Social Mundial, Porto Alegre, 2005; discursos sobre cultura digital e software livre.
  • HUI, Yuk. A questão da técnica na China: um ensaio sobre a cosmotécnica. 2016.
  • PIAIA, Victor; ALVES, Marcelo. Abrindo a caixa preta: análise exploratória da rede bolsonarista no WhatsApp. Intercom, 2020.
  • STANGL, André. Por uma Cosmotécnica Tropical. 2025.
  • STANGL, André. Coexistência criativa: ecologias cognitivas, cosmotécnica e antropofagia diante das IAs. 2026.

Nota de elaboração: esta versão foi desenvolvida em diálogo com inteligência artificial, a partir das reflexões, referências e hipóteses apresentadas pelo autor. É um texto preliminar, aberto à revisão e ao aprofundamento conceitual.

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