Coexistência criativa: ecologias cognitivas, cosmotécnica e antropofagia diante das IAs

Introdução

No dia 28 de agosto de 2026, realizamos no KreativLab do Goethe-Institut, em Salvador, os Circuitos Interdisciplinares em Inteligência Artificial, iniciativa do Digitalia Campus Hacker / Rede Interdisciplinar de IA na UFBA. O encontro foi pensado como um espaço para conectar pesquisas, laboratórios, ensino, experimentações e debates sobre inteligência artificial na UFBA, mas também em diálogo com outras instituições, artistas, pesquisadores e a sociedade.

Ao longo do dia, a programação percorreu diferentes dimensões desse debate: o ecossistema de IA na universidade, ética, governança e regulação, educação, trabalho, novas formas de pesquisa, práticas experimentais e criação artística. Houve circuitos de conversa pela manhã, oficinas e encontros abertos à tarde e, no encerramento, um debate dedicado às relações entre agentes humanos e não humanos, seguido de intervenções artísticas.

Minha participação atravessou diferentes momentos do encontro. Na abertura, apresentei brevemente algumas das questões que vêm mobilizando a Rede Interdisciplinar de IA na UFBA. À tarde, conduzi a oficina “Coexistência criativa e coescrita com IAs e agentes”, concebida como um laboratório de práticas de cognição e cocriação. Mais tarde, participei também do diálogo de encerramento “Código Aberto: Estéticas Híbridas e o Futuro da Re-Criação”, no qual retomamos várias dessas questões por uma perspectiva mais ligada à cultura, à arte e às formas de coexistência com sistemas inteligentes.

O texto a seguir reúne e desenvolve algumas ideias apresentadas nesses momentos. Mais do que reproduzir literalmente as falas, procuro reconstruir o percurso da reflexão: a dificuldade de compreender uma transformação enquanto ainda estamos imersos nela; a ideia de ecologias cognitivas e dos antiambientes de Marshall McLuhan; a cosmotécnica de Yuk Hui; experiências de composição de sentido; e a possibilidade de pensar, a partir da Tropicália e da antropofagia, formas próprias, críticas e criativas de relação com as inteligências artificiais.

A programação completa, participantes e demais informações sobre os Circuitos estão disponíveis no site do evento:
Circuitos Interdisciplinares em Inteligência Artificial — Digitalia Campus Hacker

Coexistência criativa: ecologias cognitivas, cosmotécnica e antropofagia diante das IAs

Relato expandido de minha participação no encontro, reconstruído a partir das gravações e das ideias desenvolvidas durante as falas. Não se trata de uma transcrição literal: alguns argumentos foram reorganizados e desenvolvidos para tornar mais claro o percurso da reflexão.

Uma espécie de vertigem

Quem acompanha as discussões sobre inteligência artificial vive hoje uma situação de vertigem. Praticamente todos os dias surge alguma notícia anunciando que tudo vai mudar novamente. Dependendo de quem fala, estamos diante do fim da humanidade ou de sua salvação.

É também por isso que nosso grupo interdisciplinar começou a se reunir regularmente. Costumo brincar que esses encontros têm algo de terapia coletiva. Reunimos pessoas com formações bastante diferentes, e não existe propriamente uma “posição do grupo”. Em vários temas temos posições distintas, às vezes até antagônicas.

Talvez essa diversidade seja justamente uma das riquezas da experiência.

Há, no entanto, uma percepção que aparece com frequência nas nossas conversas: não conseguimos compreender a transformação em curso se reduzirmos a inteligência artificial à ideia de ferramenta.

Esse é um ponto de partida importante.

Tenho tentado inclusive evitar o verbo “usar” quando penso na relação com a IA. É claro que, no cotidiano, usamos sistemas e programas. Mas o problema começa quando a categoria do uso passa a determinar toda a nossa compreensão do fenômeno.

Um martelo pode ser compreendido principalmente pelo que fazemos com ele. Uma tecnologia que interfere na maneira como lemos, escrevemos, pesquisamos, produzimos imagens, tomamos decisões, nos comunicamos e organizamos conhecimento talvez exija outra abordagem.

Estamos diante de algo mais próximo de uma transformação do ambiente cognitivo.

Ecologias cognitivas

Gosto de pensar essa transformação a partir da ideia de ecologia cognitiva.

Uma ecologia cognitiva não é composta apenas por indivíduos pensando isoladamente. Ela envolve pessoas, linguagens, instituições, técnicas, suportes, objetos, hábitos e formas de circulação da informação.

A escrita é uma tecnologia cognitiva. O livro é. A biblioteca é. A universidade é. O rádio e a televisão também reorganizaram nossas relações com a informação. Computadores, celulares, mecanismos de busca e redes sociais fizeram o mesmo.

A inteligência artificial entra agora nessa história.

Por isso, sua presença não significa simplesmente acrescentar uma ferramenta nova a um ambiente que continuaria igual. O próprio ambiente começa a mudar.

Isso altera a maneira como organizamos o conhecimento e, progressivamente, também pode modificar a maneira como pensamos, lemos e escrevemos.

As teorias sobre redes sociotécnicas, como as desenvolvidas por Bruno Latour e outros autores, já nos ajudavam a perceber que humanos e tecnologias nunca estão completamente separados. Nossas ações acontecem em redes compostas simultaneamente por pessoas, dispositivos, instituições, normas e objetos.

Com as IAs, essa relação parece ganhar uma nova intensidade.

E isso se torna ainda mais evidente com os chamados agentes de IA: sistemas que deixam de apenas responder a uma pergunta e passam a realizar sequências de ações, consultar outros sistemas, avaliar resultados e atuar recursivamente em determinados ambientes.

A questão deixa de ser simplesmente o que fazemos com a IA. Precisamos também perguntar o que acontece conosco e com nossos ambientes quando passamos a conviver com esses sistemas.

Olhar o presente pelo retrovisor

Mas existe uma dificuldade anterior: nosso vocabulário quase sempre chega atrasado.

Tentamos compreender experiências novas com palavras construídas para experiências anteriores.

Marshall McLuhan utilizava uma imagem que continua muito produtiva: frequentemente avançamos para o futuro olhando pelo retrovisor. Tentamos compreender um novo ambiente a partir das categorias do ambiente anterior.

Esse mecanismo não é necessariamente um erro. Precisamos do passado para pensar. O problema surge quando o passado impede que vejamos aquilo que já está acontecendo diante de nós.

McLuhan observava que cada novo ambiente tecnológico tende a ser inicialmente invisível para aqueles que estão imersos nele. O antigo ambiente aparece claramente; o novo funciona como pano de fundo e reorganiza silenciosamente nossas percepções.

Um exemplo banal ajuda a perceber isso.

Às vezes vemos uma criança — ou mesmo um adulto já habituado às telas — pegar uma fotografia ou uma revista de papel e fazer espontaneamente, com dois dedos, o gesto de ampliar a imagem.

Por uma fração de segundo, o corpo transportou para o papel uma expectativa adquirida na tela.

É um pequeno choque entre duas ecologias cognitivas.

Normalmente não percebemos a ecologia em que estamos mergulhados. É como tentar perceber a água estando dentro do aquário.

Até as perguntas que fazemos são produzidas, em alguma medida, pelo ambiente.

A arte como antiambiente

É aqui que outra ideia de McLuhan se torna especialmente interessante: a noção de antiambiente.

Se o ambiente tende a ficar invisível justamente porque estamos imersos nele, precisamos de experiências capazes de produzir deslocamento.

Para McLuhan, a arte podia exercer essa função. Ela produz estranhamento, altera nossa percepção e nos permite enxergar aspectos do ambiente que haviam se tornado naturais e, portanto, invisíveis. Ele chegou a definir a arte como um “antiambiente”, isto é, um modo de tornar perceptíveis as regras ocultas de um ambiente.

Isso me interessa particularmente.

A arte não precisa simplesmente nos oferecer conforto. O desconforto pode ser cognitivamente produtivo.

Uma obra, uma experiência ou uma intervenção pode interromper por alguns instantes aquilo que parecia evidente e nos obrigar a olhar novamente.

Talvez precisemos desse tipo de experiência para pensar as inteligências artificiais.

Em vez de perguntar somente “como utilizar melhor a IA?”, podemos produzir situações que nos façam perceber o que a presença da IA está modificando em nós.

A escrita não foi sempre confortável para mim

Essa questão também toca minha experiência pessoal.

Hoje escrevo muito e gosto enormemente de ler. Mas escrever nunca foi uma atividade corporalmente confortável para mim.

Olhando retrospectivamente, suspeito que algumas das dificuldades que tive na infância talvez hoje fossem identificadas como algo próximo de uma disgrafia. Segurar o lápis, organizar a escrita no papel e realizar determinadas tarefas escolares podia ser muito difícil.

Tenho inclusive uma lembrança particularmente forte da escola: fiz uma redação e uma professora amassou o papel e jogou no lixo.

Não recordo esse episódio apenas como uma memória pessoal desagradável. Hoje ele também me faz pensar na maneira como determinados ambientes educacionais confundem facilmente uma forma específica de expressão com a própria capacidade de pensar.

Durante muito tempo, provar que você aprendeu significou principalmente provar que você conseguia escrever de determinada maneira.

“Prove que você leu.”

“Prove que você escreveu.”

Mas isso não é necessariamente a mesma coisa que:

“Mostre como você pensou.”

Quando surgem novas tecnologias de escrita, é compreensível que apareça o medo de que certas capacidades desapareçam. Essa preocupação merece ser levada a sério.

Mas talvez também seja necessário perguntar quantas pessoas foram historicamente excluídas ou diminuídas porque uma determinada ecologia cognitiva transformou uma habilidade específica em medida quase universal da inteligência.

Atenção também é uma tecnologia

Isso não significa aceitar qualquer mediação tecnológica como positiva.

Ao contrário.

Tenho procurado observar como diferentes tecnologias afetam minha capacidade de atenção, criação e concentração.

Uma prática que se tornou importante para mim é reservar aproximadamente trinta minutos pela manhã para meditação.

Não faço isso como técnica de produtividade. Aliás, tenho algum incômodo quando todas as dimensões da vida são imediatamente transformadas em estratégias para produzir mais.

A questão é outra: como preservar condições para pensar e criar em ambientes que disputam permanentemente nossa atenção?

Essa pergunta também deveria fazer parte das discussões sobre IA.

Uma tecnologia pode aumentar enormemente nossa capacidade de produzir textos, imagens, códigos e análises e, ao mesmo tempo, empobrecer nossa atenção.

Não existe contradição nisso.

Por isso, a avaliação de uma tecnologia não pode ser reduzida à velocidade ou ao volume de produção que ela proporciona.

A coexistência

Tenho usado a expressão coexistência criativa para tentar nomear uma possibilidade.

É uma expressão propositiva.

Não parto da ideia de que a convivência com inteligências artificiais será necessariamente harmoniosa. Existem riscos reais e aplicações profundamente problemáticas.

Nas guerras contemporâneas, por exemplo, sistemas algorítmicos já participam de processos de identificação, classificação e seleção de alvos. À medida que delegamos mais etapas decisórias a sistemas autônomos, surgem questões éticas e políticas muito sérias.

Portanto, coexistência não significa ingenuidade.

Mas também não acredito que a única imaginação possível seja distópica.

Nós estamos em ambientes de educação, pesquisa e formação. Precisamos perguntar como construir espaços nos quais essas tecnologias possam participar de processos criativos e educativos sem que simplesmente entreguemos a elas nossas decisões, nossa atenção e nossa autonomia.

E isso exige experimentar.

Uma transformação dessa escala não será compreendida apenas teoricamente. Precisamos construir experiências, observar o que acontece, compartilhar essas experiências e desenvolver vocabulários para descrevê-las.

Yuk Hui e a cosmotécnica

Nesse caminho, tenho me aproximado das reflexões do filósofo Yuk Hui.

Um conceito especialmente interessante em seu trabalho é o de cosmotécnica.

Em uma formulação recorrente de Hui, a cosmotécnica diz respeito à articulação de uma ordem cósmica e de uma ordem moral por meio das atividades técnicas. Uma das consequências dessa perspectiva é questionar a ideia de que existe apenas uma história universal da tecnologia à qual todas as sociedades deveriam simplesmente se adaptar.

Tecnologias fazem parte de mundos.

Elas se articulam com maneiras de compreender a natureza, a comunidade, o conhecimento, o tempo e a própria existência.

Essa perspectiva é particularmente importante quando discutimos inteligência artificial no Brasil.

Não basta imaginar que soberania tecnológica significa instalar aqui servidores, modelos ou data centers.

Isso é importante, mas insuficiente.

Se continuarmos reproduzindo exclusivamente uma determinada visão de mundo, uma determinada concepção de conhecimento e uma determinada ideia de desenvolvimento, podemos ter infraestrutura localizada no Brasil e continuar epistemicamente dependentes.

Uma relação própria com essas tecnologias precisaria refletir nossos territórios, nossas tradições e nossas diferentes formas de produzir conhecimento.

I Ching e composição de sentido

Há uma experiência pessoal que me ajuda a pensar essa questão.

Tenho há bastante tempo uma relação com o I Ching, o antigo Livro das Mutações chinês.

Independentemente das diferentes formas religiosas ou filosóficas de compreendê-lo, sempre me interessou a experiência de composição de sentido envolvida na consulta a um oráculo.

Você formula uma questão.

Surge uma configuração.

Existe um texto.

Mas a resposta não está simplesmente pronta dentro do texto esperando para ser retirada.

Algo acontece entre a pergunta, a situação vivida, a configuração produzida, o texto e quem interpreta.

O sentido emerge dessa relação.

Isso tangencia algo que tenho experimentado também na convivência com inteligências artificiais.

Não estou dizendo que uma IA seja um oráculo.

A analogia tem limites evidentes.

O que me interessa é a possibilidade de pensar certas interações não a partir do esquema simples:

pergunta → máquina → resposta

mas como processos de composição de sentido.

Às vezes uma resposta da IA me faz formular outra pergunta. Essa pergunta reorganiza o problema. O problema reorganizado me faz perceber algo que eu ainda não tinha formulado. Eu devolvo isso ao sistema e recebo outra combinação.

O pensamento passa a acontecer em uma espécie de circuito.

A autoria não desaparece, mas precisamos começar a descrevê-la de outra maneira.

Não existe uma única relação com a tecnologia

Isso também nos obriga a questionar uma ideia bastante difundida: a de que existe uma trajetória tecnológica única e universal.

Se nossas tecnologias participam de ecologias cognitivas e se diferentes culturas produzem relações distintas entre técnica e mundo, então nossa pergunta não deveria ser apenas:

“Como alcançar a inteligência artificial produzida nos grandes centros tecnológicos?”

Podemos também perguntar:

“Que relação queremos construir com essas inteligências a partir daqui?”

Estamos na Bahia.

Estamos no Brasil.

Vivemos em sociedades profundamente marcadas pela experiência colonial, mas também por tradições indígenas, africanas, afro-brasileiras, populares e por inúmeras formas híbridas de criação cultural.

Por que imaginar que essas experiências não têm nada a dizer sobre nossa relação com tecnologias contemporâneas?

Quando se anuncia, por exemplo, o possível “fim da escrita”, a questão assume outra dimensão quando lembramos que existem formas sofisticadas de produção e transmissão de conhecimento que nunca dependeram exclusivamente da escrita alfabética.

Isso não significa abandonar a escrita.

Significa retirar dela o monopólio epistemológico.

Tropicália: entrar na máquina e transformá-la

Nesse ponto, a experiência da Tropicália me parece especialmente inspiradora.

Os tropicalistas não responderam à indústria cultural simplesmente tentando permanecer fora dela.

Entraram na televisão.

Entraram nos festivais.

Entraram na indústria fonográfica.

Incorporaram rock, música pop, publicidade, vanguardas artísticas e cultura de massa.

E produziram outra coisa com esses elementos.

Por isso gosto de pensar a Tropicália, anacronicamente, como uma espécie de hackeamento da mídia hegemônica por dentro.

A história da guitarra elétrica é exemplar.

Em julho de 1967 houve em São Paulo uma célebre passeata contra a guitarra elétrica, vista por parte da MPB como símbolo da influência estrangeira. Gilberto Gil participou daquele movimento. Poucos meses depois, no III Festival da Record, apresentou Domingo no Parque acompanhado pelos Mutantes, incorporando justamente instrumentos e sonoridades elétricas ao processo de transformação que desembocaria na Tropicália.

Há algo muito brasileiro nessa contradição.

Em vez de procurar uma pureza anterior à contaminação tecnológica, a experiência tropicalista mostrou a potência de incorporar e transformar.

A antropofagia como escola

E aí chegamos inevitavelmente à antropofagia.

A antropofagia modernista propunha uma relação com a cultura estrangeira que não fosse nem submissão nem simples rejeição.

Devorar.

Digerir.

Transformar.

Produzir outra coisa.

Talvez possamos aprender alguma coisa com isso ao pensar inteligência artificial.

Entre uma aceitação deslumbrada das tecnologias produzidas pelas grandes empresas e uma recusa que imagina ser possível preservar um território completamente exterior às redes digitais, existe um vasto espaço de experimentação.

Podemos apropriar.

Desmontar.

Recombinar.

Desviar.

Provincializar.

Misturar com outras tradições.

Criar usos não previstos.

Criar também recusas específicas.

A antropofagia, nesse sentido, pode funcionar menos como uma resposta pronta e mais como uma escola de relação com a alteridade tecnológica.

Coexistência criativa

É nesse ponto que volto à expressão com que comecei: coexistência criativa.

Não sei qual será a forma dessa coexistência.

Talvez ninguém saiba ainda.

Os próprios sistemas estão mudando rápido demais para que tenhamos respostas definitivas.

Mas podemos começar estabelecendo alguns critérios.

Uma coexistência interessante com inteligências artificiais não pode ser apenas eficiente. Precisa ser socialmente responsável.

Não pode simplesmente aumentar a produção. Precisa preservar espaços de atenção.

Não pode substituir toda diferença por um modelo universal. Precisa comportar diferentes territórios, cosmologias e formas de conhecimento.

Não pode eliminar o conflito. Precisa nos ajudar a perceber os conflitos que já existem.

Não pode transformar pessoas em operadores passivos de sistemas que não compreendem. Precisa ampliar nossa capacidade de interrogar, criar e decidir.

Talvez seja por isso que, diante da velocidade atual, eu continue insistindo na experimentação.

Experimentar não significa aceitar tudo.

Significa criar condições para perceber.

Como na ideia de antiambiente de McLuhan, precisamos produzir situações que nos permitam enxergar a ecologia cognitiva que está se formando enquanto ainda estamos dentro dela.

Como na cosmotécnica de Yuk Hui, precisamos perguntar que mundos nossas tecnologias carregam — e que outros mundos podemos construir com elas.

Como na experiência antropofágica e tropicalista, talvez possamos entrar nessas tecnologias sem simplesmente nos entregar a elas.

Devoração não é submissão.

É transformação.

No fundo, a pergunta que continua orientando minha pesquisa e minhas experiências talvez seja bastante simples:

como podemos construir uma forma criativa, crítica e saudável de coexistência com as inteligências artificiais?

Nota técnica

Este relato foi elaborado a partir das gravações e transcrições automáticas das falas realizadas durante o evento.

A primeira intervenção foi preservada de forma bastante próxima ao registro oral, com correções pontuais de nomes, termos, pontuação e erros evidentes de reconhecimento de voz.

Na segunda intervenção, a qualidade do áudio estava significativamente comprometida, o que fez com que a transcrição automática produzisse diversos trechos incorretos ou sem sentido. Nesses casos, o texto foi reconstruído a partir dos segmentos ainda audíveis, da sequência argumentativa da fala e da memória do autor sobre os temas abordados.

Por essa razão, este documento não deve ser entendido como uma transcrição literal, mas como um relato expandido e reconstruído da intervenção.

Na preparação da versão para publicação, alguns conceitos e referências mencionados oralmente — como ecologia cognitiva, antiambiente em Marshall McLuhan, cosmotécnica em Yuk Hui, I Ching, Tropicália e antropofagia — foram desenvolvidos ou contextualizados para facilitar a compreensão do argumento. Também foram acrescentados exemplos e informações históricas complementares quando contribuíam para explicitar ideias que, na apresentação oral, apareceram de forma mais sintética.

Sempre que a gravação não permitiu recuperar com segurança uma formulação específica, optou-se por preservar o sentido geral do argumento em vez de atribuir ao autor palavras cuja ocorrência no áudio não pudesse ser confirmada.

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