A cultura em tempos de IA

Ontem, participei do webinário “A cultura em tempos de IA”, promovido pela Academia de Ciências da Bahia, presidida por Manoel Barral Netto, e mediado por Nelson Pretto.

A conversa reuniu Giselle Beiguelman, Johanna Monagreda, Messias Bandeira, Sheila Ribeiro e eu, articulando diferentes perspectivas sobre arte, educação, política, música, corpo, racismo algorítmico e cultura digital.

Mais do que apresentar ferramentas, buscamos compreender as transformações culturais produzidas pelas inteligências artificiais: as novas formas de criar e fazer circular imagens, textos e músicas; os vieses e as desigualdades reproduzidos pelos sistemas; as disputas políticas, econômicas e ambientais envolvidas; e as possibilidades de apropriação, reinvenção e coexistência com tecnologias que já participam da produção do nosso cotidiano.

Agradeço à Academia de Ciências da Bahia, a Manoel Barral Netto e Nelson Pretto pelo convite e pela iniciativa, às colegas e aos colegas de mesa e a todas as pessoas que acompanharam essa conversa tão necessária.

Resumo detalhado do webinário

O webinário foi promovido pela Academia de Ciências da Bahia — ACB, com aproximadamente duas horas e quinze minutos de duração. A mediação ficou a cargo do professor Nelson Pretto, e a abertura institucional foi feita pelo médico e pesquisador Manoel Barral Netto, presidente da Academia. Participaram Giselle Beiguelman, Messias Bandeira, Johanna Monagreda, André Stangl e Sheila Ribeiro. A transcrição apresenta alguns erros automáticos em nomes e termos, mas permite acompanhar claramente os principais argumentos.

1. Abertura de Manoel Barral Netto

Nelson Pretto iniciou o encontro destacando o trabalho de Manoel Barral Netto na presidência da Academia de Ciências da Bahia, especialmente a ampliação da presença da instituição nas redes e a promoção de encontros públicos e on-line.

Barral agradeceu aos participantes e ressaltou a qualidade e a diversidade do grupo reunido. Segundo ele, o encontro permitiria observar diferentes dimensões da relação entre cultura, arte e inteligência artificial.

Sua fala também apresentou uma concepção ampliada da própria Academia. Embora a instituição tenha “ciências” no nome, Barral afirmou que ela não pretende limitar sua atuação às ciências exatas, naturais ou biológicas. A Academia busca envolver igualmente a pesquisa em arte, cultura e humanidades, ocupando-se, de maneira abrangente, daquilo que constitui a cultura humana.

A presença de Barral deu ao encontro um enquadramento institucional importante: a inteligência artificial não foi tratada apenas como questão técnica, mas como tema científico, artístico, político e cultural.

2. Introdução de Nelson Pretto

Nelson Pretto apresentou o encontro como resposta a um momento de rápidas transformações tecnológicas. Mencionou alguns fenômenos que tornam urgente a discussão:

  • a expansão dos agentes de inteligência artificial;
  • a circulação crescente de músicas produzidas ou mediadas por sistemas digitais;
  • a crise da escola e da universidade;
  • as dificuldades das instituições educacionais em compreender as transformações posteriores à pandemia;
  • a presença das IAs na produção de textos, imagens, músicas e conhecimentos.

Nelson propôs que cada participante falasse por cerca de quinze a vinte minutos, deixando o restante do tempo para uma conversa coletiva. Na prática, as falas se estenderam e o debate final acabou não acontecendo.

3. Giselle Beiguelman: ambivalência, colonialismo e “fantasmas algorítmicos”

Giselle Beiguelman iniciou sua exposição rejeitando a polarização simplificadora entre tecnofobia e tecnofilia. Para ela, os sistemas tecnológicos são profundamente ambivalentes: podem abrir horizontes de transgressão e experimentação, mas também reforçar padrões sociais, culturais e políticos hegemônicos.

Ela lembrou que debates semelhantes ocorreram no início da internet, quando também se anunciavam o fim da arte, a impossibilidade da criação e a destruição de determinadas profissões. Em sua avaliação, as ameaças mais graves não estão necessariamente no desaparecimento da arte, mas nas dimensões políticas, coloniais e ecológicas da tecnologia.

Natureza e cultura

Giselle relacionou a inteligência artificial à separação ocidental entre natureza e cultura. Essa divisão, consolidada pelo colonialismo, teria distribuído desigualmente os direitos:

  • no campo da cultura ficam os seres reconhecidos como sujeitos de direitos;
  • no campo da natureza ficam os seres sobre os quais outros podem exercer domínio.

Essa “natureza” colonialmente inventada não incluiria apenas animais, plantas e minerais, mas também corpos racializados, povos colonizados e grupos historicamente privados de autonomia.

Botânica Tirânica

A artista apresentou o projeto Botânica Tirânica, iniciado antes da atual popularização da IA generativa. Nele, Giselle investigou plantas cujos nomes comuns ou científicos carregam marcas racistas, antissemitas, anti-indígenas, misóginas, homofóbicas, orientalistas ou imperialistas.

Utilizando redes generativas adversárias, as GANs, cruzou visualmente diferentes plantas e produziu seres imaginários difíceis de classificar como animais, vegetais ou minerais. O objetivo era desestabilizar as fronteiras entre natureza e cultura e tornar visíveis preconceitos incorporados à linguagem cotidiana.

Posteriormente, ela passou a investigar plantas banidas, amaldiçoadas ou criminalizadas, muitas vezes relacionadas a conhecimentos femininos ancestrais. A cannabis foi apresentada como exemplo de uma planta vinculada a saberes tradicionais que foi perseguida e criminalizada até ser apropriada pela indústria farmacêutica.

Mulheres apagadas e Luzia Pinta

Em outro momento do trabalho, Giselle procurou reconstruir, por meio da IA, os rostos de mulheres apagadas da história da ciência e da arte. Ela optou por representá-las na idade que tinham ao morrer, evitando a tendência cultural de retratar mulheres apenas como jovens.

O processo revelou a dificuldade dos sistemas generativos em produzir imagens de mulheres idosas, altivas, negras ou marcadas por experiências históricas de sofrimento.

O caso mais significativo foi o de Luzia Pinta, mulher africana escravizada desde a infância, reconhecida por suas práticas de cura e posteriormente perseguida pela Inquisição. Giselle passou cerca de seis meses tentando gerar uma representação que correspondesse às informações históricas existentes.

Os sistemas inicialmente produziram mulheres jovens, curvadas, idealizadas ou semelhantes a modelos. Mesmo quando apareciam mulheres negras, os rostos não expressavam a experiência histórica de escravização, perseguição e violência sofrida por Luzia Pinta.

Eugenia maquínica e fantasmas algorítmicos

Para Giselle, essa dificuldade revela uma espécie de eugenia maquínica: os sistemas tendem a produzir corpos próximos dos padrões hegemônicos de beleza, juventude, branquitude e normalidade.

Ao mesmo tempo, ela argumentou que os bancos de dados contêm vestígios de muitas outras histórias. Chamou esses vestígios de “fantasmas algorítmicos”. Embora os modelos estatísticos tendam à repetição do padrão dominante, o confronto crítico e criativo com o sistema pode fazer emergir imagens, memórias e possibilidades que permanecem escondidas nos dados.

A imagem gerada, portanto, não seria simplesmente inventada, mas imaginada a partir de informações dispersas, incompletas e lacunares.

Datacolonialismo e meio ambiente

Na parte final, Giselle chamou atenção para os impactos ambientais da inteligência artificial: consumo energético, extração de recursos, produção de equipamentos e descarte de lixo eletrônico.

Ela apresentou o projeto Beleza Corrosiva, no qual utiliza equipamentos eletrônicos descartados. O trabalho evidencia o vínculo entre cultura digital, obsolescência tecnológica, extração material e produção de resíduos. Assim, a IA não deve ser discutida apenas no plano simbólico; ela depende de uma infraestrutura material com importantes consequências ecológicas.

4. Messias Bandeira: ecossistemas híbridos e cocriação

Messias Bandeira abordou a inteligência artificial a partir dos ecossistemas híbridos e dos processos de criação envolvendo agentes humanos e não humanos.

Sua preocupação não é definir uma oposição entre indivíduo e máquina, sujeito e objeto ou humano e tecnologia. O interesse está nos processos integrados de criação e nas novas formas de modelagem das práticas artísticas.

A criação sempre foi relacional

Messias argumentou que a cocriação não nasceu com a inteligência artificial. A criação artística sempre envolveu negociação com materiais, instrumentos, técnicas, ambientes, linguagens, tradições e outras pessoas.

A novidade atual estaria na intensidade e na visibilidade dessa relação. O encontro entre a intenção humana e a lógica estatística das máquinas produz fricções que modificam a própria ontologia do ato criativo.

Ele apresentou duas ideias fundamentais:

  1. a inteligência artificial como artefato cultural;
  2. a inteligência artificial como outro social.

Isso significa que a IA não deve ser entendida apenas como instrumento. Ela participa de processos artísticos, científicos, sociais, políticos e econômicos.

Debates antigos em uma nova escala

Messias recordou que as reações negativas às tecnologias não são novas. Citou, por exemplo, protestos de professores contra calculadoras nos cursos de engenharia, na década de 1970.

Questões atuais — como perda de empregos, direitos autorais, autenticidade artística e substituição de criadores — repetem discussões anteriores. A diferença está na escala, na velocidade e na capacidade de difusão das IAs generativas.

Música, Kraftwerk e plataformas

A música ocupou parte importante de sua apresentação. Messias recordou o papel do Kraftwerk na construção de um imaginário sobre a relação entre seres humanos, computadores e criação musical.

Também mostrou dados sobre a enorme quantidade de músicas disponíveis nas plataformas de streaming. Apesar da existência de centenas de milhões de faixas, uma parcela muito pequena concentra a maior parte das audições, enquanto milhões de músicas são executadas poucas vezes ou nunca chegam a ser ouvidas.

Para Messias, isso revela que a abundância digital não produz automaticamente diversidade. Os algoritmos de recomendação podem manter os ouvintes consumindo “mais do mesmo”, concentrando a atenção em poucos artistas e obras.

Máquinas sincréticas

Messias apresentou o conceito, ainda em elaboração, de “máquinas sincréticas” ou “máquinas de cultura”. Seriam processos tecnológicos capazes de:

  • acumular e recuperar informações;
  • aprender e sistematizar;
  • produzir conteúdos e sentidos;
  • intervir no ambiente;
  • tomar decisões;
  • criar, ressignificar e participar de processos cognitivos.

Essas máquinas integram diferentes dimensões culturais e tecnológicas, deixando de ser simples ferramentas isoladas.

Ética, dados e o belo imperfeito

A exposição também destacou problemas relacionados a:

  • opacidade dos modelos;
  • dados de treinamento;
  • vieses algorítmicos;
  • direitos autorais;
  • regulamentação;
  • concentração política e econômica.

Messias questionou a exigência de perfeição dirigida às máquinas. A arte humana não é necessariamente perfeita; muitas vezes, sua singularidade nasce do erro, da ruptura e do inesperado. Por isso, seria necessário pensar também em uma estética do “belo imperfeito”.

Apesar dos riscos, ele apresentou uma posição predominantemente otimista: acredita que a sociedade pode orientar as tecnologias para processos humanos e cocriativos, desde que desenvolva ação crítica, política e cultural.

5. Johanna Monagreda: racismo algorítmico, datificação e contracultura

Johanna Monagreda iniciou sua apresentação com uma passagem do Discurso sobre o colonialismo, de Aimé Césaire. A escolha estabeleceu o argumento central de sua fala: o discurso do progresso tecnológico frequentemente oculta violência, exploração, destruição cultural e colonialismo.

Para Johanna, a inteligência artificial não é apenas uma tecnologia espetacular. Ela também prolonga e automatiza estruturas coloniais, racistas, capitalistas e extrativistas.

Sua análise partiu de uma perspectiva racial e de gênero, especialmente relacionada à privacidade, à proteção de dados e ao racismo algorítmico.

IA como objeto e como sujeito

Johanna propôs compreender a IA de duas maneiras:

  • como objeto, considerando sua infraestrutura técnica, os processadores, aparelhos e sistemas;
  • como sujeito, observando os valores políticos, econômicos e epistemológicos incorporados à tecnologia.

Como sujeito sociotécnico, a IA nasceria dentro de um contexto marcado por militarismo, colonialismo, capitalismo, vigilância e controle dos corpos.

A falha revela a normalidade

Johanna não tratou as falhas algorítmicas apenas como bugs. Para ela, o erro revela o padrão de normalidade da sociedade. Quando uma IA falha de maneira racista, evidencia que o modelo dominante continua sendo branco, masculino, heterossexual e sem deficiência.

Ela apresentou diversos exemplos:

  • um termômetro reconhecido como ferramenta quando segurado por uma mão branca e como arma quando segurado por uma mão negra;
  • uma ilustração em homenagem a Lewis Hamilton interpretada como publicidade de armas;
  • uma imagem solicitada pela deputada Renata Souza na qual a IA acrescentou uma arma não mencionada no comando;
  • uma imagem de mulheres negras embranquecida por um recurso automático de “melhoria”;
  • uma representação de Lélia Gonzalez acompanhada por elementos associados a cocaína;
  • sistemas de busca que impediam pesquisas contendo a palavra “negra”, por relacioná-la indevidamente a drogas;
  • algoritmos de saúde que priorizavam pacientes brancos;
  • algoritmos judiciais que atribuíam maior risco de reincidência a pessoas negras;
  • sistemas de reconhecimento facial que produzem muito mais erros com pessoas negras, especialmente mulheres negras.

Johanna citou uma pesquisa sobre o uso de reconhecimento facial na Micareta de Feira de Santana, em 2019, segundo a qual aproximadamente 70% dos alertas teriam sido falsos.

Autoridade científica e desumanização

Esses sistemas carregam uma promessa de neutralidade, objetividade e eficiência científica. Por isso, suas decisões podem parecer mais legítimas do que julgamentos humanos.

O risco é transformar preconceitos históricos em resultados aparentemente técnicos. Pessoas negras passam a ser novamente representadas como suspeitas, perigosas, violentas ou menos humanas, agora com a legitimação de sistemas automatizados.

O Atlântico Negro e a sociedade algorítmica

Johanna dialogou com Paul Gilroy e o conceito de Atlântico Negro. Segundo a interpretação apresentada, Gilroy teria afirmado recentemente que o Atlântico Negro deixou de existir porque a maquinaria algorítmica, a monetização da atenção e a previsibilidade do comportamento enfraqueceram a fluidez, a insurgência e a vida comunitária das culturas diaspóricas.

A música, que antes promovia encontros coletivos e mediação da dor, estaria sendo cada vez mais experimentada individualmente, por meio de fones, plataformas e ambientes privados.

Johanna não aceitou inteiramente esse diagnóstico. Embora compartilhe do pessimismo em relação à sociedade algorítmica, considera necessário preservar um espaço para a utopia.

Datificação da identidade racial

A transformação da experiência humana em dados digitais produz uma datificação da identidade racial. Características, comportamentos, imagens e relações passam a ser coletados, processados e monetizados.

Johanna interpretou esse processo como um novo sequestro do corpo negro. O corpo volta a ser descrito, classificado e apropriado por forças externas, agora por meio de bancos de dados, sistemas biométricos e modelos automatizados.

A resistência precisaria atuar em duas direções:

  • proteger os indivíduos contra a captura total de seus dados;
  • apropriar-se das tecnologias para reconstruir e reimaginar o corpo negro a partir da autodeterminação.

Ela citou campanhas contra reconhecimento facial, maquiagens destinadas a confundir câmeras, projetos que reimaginam vidas de mulheres escravizadas e trabalhos que usam documentos históricos para reconstruir rostos de africanos libertados por Luiz Gama ou de pessoas escravizadas registradas no Arquivo Público da Bahia.

Sua conclusão foi que a tarefa política talvez seja preservar aquilo que resiste à quantificação: encontro, comunidade, prazer, dança, felicidade e alegria.

6. André Stangl: ecologia cognitiva, escrita e antropofagia do algoritmo

André Stangl apresentou-se como alguém que vem experimentando os limites da coexistência com as inteligências artificiais. Sua questão central foi entender como a IA reorganiza a cognição, a memória e a experiência humana do mundo.

Retorno a Isaac Asimov

André contou que, ao começar a interagir com sistemas generativos, retomou suas leituras de Isaac Asimov, especialmente os contos e romances sobre robôs.

Asimov representaria uma perspectiva iluminista e racionalista: a crença de que seria possível resolver problemas tecnológicos por meio de um bom desenho, de regras claras e de salvaguardas, como as Três Leis da Robótica.

Entretanto, a própria ficção de Asimov revela os limites desse ideal. Quando as leis entram em contato com situações concretas, surgem conflitos, paradoxos e bloqueios. O real excede o planejamento racional.

Uma nova ecologia cognitiva

Para André, a inteligência artificial deve ser compreendida como parte de uma transformação cognitiva comparável às mudanças provocadas pela escrita, pela imprensa, pela eletrificação e pela digitalização.

As tecnologias não são simples ferramentas externas. Elas participam da construção daquilo que percebemos como realidade. Telescópios, computadores, fotografias e sistemas de escrita modificam as formas de conhecer e de organizar o mundo.

A centralidade da escrita

Um dos pontos principais foi o possível enfraquecimento da centralidade da escrita. André não afirmou que a escrita desaparecerá, mas que deixará de ocupar a posição exclusiva que assumiu na cultura ocidental.

A escrita também é uma tecnologia excludente, pois historicamente separou alfabetizados e não alfabetizados, transformando essa diferença em hierarquia epistemológica.

As IAs capazes de interagir por voz podem abrir outras possibilidades de participação cultural e produção de conhecimento. Pessoas afastadas dos sistemas tradicionais de escrita poderão conversar, elaborar ideias, registrar memórias e produzir conhecimentos oralmente.

Essa transformação teria inclusive um potencial contracolonial.

Tecnologia não é destino

André ressaltou que a tecnologia não é neutra, mas também não está definitivamente determinada. Ela pode ser:

  • reescrita;
  • recodificada;
  • apropriada;
  • recombinada;
  • transformada por outras culturas.

Por isso, seria insuficiente identificar inteligência artificial apenas com os produtos das grandes empresas norte-americanas. Código aberto, software livre e outras formas de governança podem permitir novas apropriações, especialmente por países do Sul Global.

Para além de otimismo e pessimismo

André questionou a oposição rígida entre otimistas e pessimistas. Para ele, essa dualidade deriva de uma cosmologia linear e monoteísta, estruturada em pares como salvação e condenação, paraíso e inferno.

Inspirado em Nego Bispo, propôs uma visão policêntrica, variável e não linear. A relação com a tecnologia dependeria da situação, das forças envolvidas e das diferentes cosmologias.

Nesse ponto, aproximou Achille Mbembe e Yuk Hui. O conceito de cosmotécnica, de Yuk Hui, permite pensar que não existe uma tecnologia universal, mas diferentes formas culturais de relacionar técnica, mundo e cosmos.

Reapropriações culturais

André apresentou exemplos musicais de apropriação tecnológica:

  • os sistemas de som jamaicanos, que contribuíram para o dub e para a música eletrônica;
  • a apropriação do Kraftwerk por Afrika Bambaataa;
  • o nascimento de novas vertentes do hip-hop a partir de recombinações imprevistas.

Essas experiências demonstram que tecnologias produzidas em determinado contexto podem ser apropriadas e transformadas por outros grupos.

Alucinação, Flusser e memória oral

André afirmou que se interessa especialmente pelos momentos em que a IA “alucina” ou segue caminhos inesperados. Em vez de enxergar apenas erro, vê nessas rupturas oportunidades para abandonar a linearidade e encontrar novas conexões.

Recorreu também a Vilém Flusser, especialmente às reflexões sobre a escrita, o gesto e a pós-história. O gesto de escrever à mão já foi parcialmente substituído pela máquina de escrever, pelo teclado e pelas telas. Agora, gravação, transcrição e IA podem modificar novamente a maneira de registrar experiências.

André descreveu sua prática de gravar aulas, palestras e reuniões, transcrevê-las e utilizar uma IA contextualizada para reorganizar o conteúdo. Nesse processo, a memória passa a se apoiar menos na anotação manual e mais na oralidade registrada e reconstruída.

Sua conclusão propôs uma antropofagia do algoritmo: utilizar a experiência cultural tropical, a mistura, a recombinação e a apropriação para transformar as inteligências artificiais. Retomando Gilberto Gil, afirmou que essa experiência nos oferece “régua e compasso” para reinventar a convivência entre humanos e não humanos.

7. Sheila Ribeiro: desejo, esquecimento, corpo e relação com a IA

Sheila Ribeiro iniciou ampliando a noção de cultura. Para ela, cultura não é apenas cultura regional ou artística, mas também cultura do corpo, do esporte, da moda, da música, da noite, do gênero e das diásporas.

Delegação do desejo

Sheila questionou o que significa produzir “conteúdo” com inteligência artificial. Relatou um processo seletivo no qual as pessoas deveriam responder por que queriam trabalhar com ela. A maioria das respostas parecia ter sido produzida por IA.

O problema não era apenas a autoria do texto, mas a delegação do desejo. Ao pedir que a máquina formulasse a resposta, as pessoas delegavam a ela aquilo que queriam, sentiam ou pretendiam.

Essa delegação pode interferir na autonomia, no protagonismo e na capacidade de expressar a própria vontade.

O valor de esquecer

Sheila relatou que, durante uma entrevista na Rádio Metrópole, esqueceu duas vezes o que estava dizendo. Em vez de disfarçar, afirmou publicamente: “eu esqueci”.

Para ela, reconhecer o esquecimento é um gesto político, porque confronta a exigência neoliberal de produtividade, eficiência, simpatia permanente e desempenho contínuo.

A IA pode errar ou alucinar, mas não experimenta o esquecimento como um corpo humano. Por isso, Sheila perguntou: qual é o valor cultural de não saber e de esquecer?

Olhar e visão

A partir de uma experiência entre os Bororo, Sheila diferenciou olhar e visão. Em determinados rituais, o fato de as mulheres não poderem olhar diretamente não significava que não participassem. Havia outras maneiras de experimentar, perceber e produzir sentido.

Essa lembrança levou à pergunta: o que vemos quando nos relacionamos com a IA e o que permanece invisível, mas é corporal ou intuitivamente sentido?

A IA pode atuar como assistente, amiga, companheira ou interlocutora. Essa proximidade modifica autoestima, percepção, desejo e modos de representação.

Ódio, misoginia e plataformas

Sheila também abordou ataques misóginos recebidos nas redes após sua participação em uma entrevista. A violência digital possui efeitos corporais, emocionais e culturais.

As redes sociais já legitimaram formas de agressão que provavelmente não aconteceriam da mesma maneira em encontros presenciais. A inteligência artificial poderá criar novas formas de produzir, ampliar e automatizar o ódio.

Não estamos simplesmente “usando” a IA

O principal argumento da fala de Sheila foi a recusa do verbo usar. Para ela, a relação com a inteligência artificial não pode ser descrita como uso de uma ferramenta.

Quando interagimos com a IA, também somos transformados. Mudam:

  • a cognição;
  • a percepção;
  • a representação do corpo;
  • a organização dos desejos;
  • a maneira de ocupar o espaço;
  • a forma de construir narrativas sobre nós mesmos.

Ela não apresentou uma resposta definitiva para nomear essa relação. Perguntou se seria uma membrana, uma robotização do humano, uma humanização da máquina ou uma transformação recíproca. Sua única posição firme foi: “uso” não seria uma palavra suficiente.

Ao final, apresentou a expressão “Laia Laia”, aproximando a sigla “IA” de uma sonoridade associada ao samba. A proposta simbolizava uma apropriação cultural, afetiva e musical da inteligência artificial.

8. Convergências do encontro

Apesar das diferenças, as falas convergiram em alguns pontos fundamentais.

A IA não é apenas uma ferramenta

Todos os participantes, de diferentes maneiras, rejeitaram a ideia de que a IA seja apenas um instrumento passivo. Ela participa da criação, reorganiza relações, interfere na percepção e transforma instituições.

A tecnologia é cultural e política

Os sistemas de IA carregam valores, dados, interesses econômicos e histórias sociais. Racismo, colonialismo, etarismo, misoginia e desigualdade não aparecem apenas como defeitos externos: podem ser incorporados ao funcionamento dos sistemas.

A criação é cocriativa

A produção artística sempre envolveu relações entre humanos, técnicas, materiais e ambientes. A IA amplia essa condição e torna mais visível a participação de agentes não humanos.

O erro pode ser revelador

Giselle, Johanna, André e Sheila abordaram, por caminhos diferentes, a importância da falha:

  • a falha revela os padrões hegemônicos;
  • evidencia preconceitos;
  • abre caminhos estéticos;
  • rompe com a linearidade;
  • mostra os limites da promessa de perfeição tecnológica.

É necessário disputar a tecnologia

O encontro não propôs simplesmente rejeitar ou aceitar as IAs. A questão é disputar seus usos, suas infraestruturas, suas formas de treinamento e suas possibilidades de apropriação.

Essa disputa envolve código aberto, direitos, proteção de dados, diversidade cultural, criatividade e elaboração de tecnologias vinculadas a outras cosmologias.

Corpo, comunidade e experiência

O corpo apareceu como dimensão central:

  • corpos racializados e envelhecidos nas imagens de Giselle;
  • corpos negros classificados pelos algoritmos na fala de Johanna;
  • oralidade e gesto na fala de André;
  • memória, esquecimento e percepção corporal na fala de Sheila.

As intervenções sugeriram que aquilo que não é facilmente convertido em dados — presença, encontro, prazer, dança, sofrimento, comunidade e memória — precisa ser preservado e reinventado.

9. Encerramento

Devido à duração das apresentações, não houve tempo para o debate coletivo inicialmente previsto. Nelson Pretto reconheceu a dificuldade de interromper as exposições e agradeceu aos participantes e ao público.

Manoel Barral Netto voltou a aparecer no encerramento, classificando o encontro como um excelente webinário. Messias Bandeira agradeceu novamente à Academia de Ciências da Bahia, e Giselle Beiguelman sugeriu que o grupo se reunisse novamente, dessa vez exclusivamente para o debate.

O encontro terminou reafirmando que a discussão estava apenas começando. Mais do que avaliar se as inteligências artificiais são boas ou ruins, o webinário procurou compreender que culturas, corpos, conhecimentos, desigualdades e possibilidades de criação estão sendo produzidos na coexistência com essas tecnologias.

Nota técnica

Este resumo foi elaborado a partir da transcrição automática do webinário “A cultura em tempos de IA”, com duração aproximada de 2h15. O texto reorganiza as falas por participante e por eixos temáticos, preservando os principais argumentos, exemplos e conceitos apresentados durante o encontro.

Como a transcrição foi produzida automaticamente, ela contém imprecisões em nomes próprios, títulos de obras, termos estrangeiros e referências bibliográficas. Alguns desses erros foram corrigidos quando o contexto permitia identificação segura; nos casos duvidosos, evitou-se acrescentar informações não confirmadas pelo material. O resumo não constitui uma transcrição literal nem uma revisão acadêmica das referências citadas, mas uma síntese interpretativa e estruturada do conteúdo oral do evento.

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