Essa semana tive a alegria de participar, como professor, do componente Introdução à Saúde Digital, no Mestrado Profissional do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (link), ao lado dos colegas Thais Aranha Rossi e Marcio Natividade.
O componente parte de uma compreensão ampla da Saúde Digital. Mais do que acrescentar equipamentos, aplicativos ou sistemas aos serviços de saúde, buscamos compreender como tecnologias, dados, instituições, políticas públicas, práticas profissionais e diferentes formas de conhecimento participam da organização do cuidado e do próprio SUS.
Ao longo dos encontros, discutimos a história da Saúde Digital, os processos de trabalho em saúde, a cultura digital, as mediações sociotécnicas, a inteligência artificial, a proteção de dados, as políticas públicas e as agendas contemporâneas de pesquisa. O objetivo foi aproximar essas discussões dos problemas concretos vividos pelos estudantes em seus contextos profissionais.
As aulas aconteceram em formato metapresencial, reunindo simultaneamente estudantes e professores em Salvador e Brasília. Inspirada na formulação de Naomar de Almeida Filho, a metapresencialidade não significa simplesmente transmitir uma aula presencial para quem está distante. Trata-se de construir uma forma ampliada de presença, na qual tecnologias digitais participam da produção de reciprocidade, diálogo, colaboração e pertencimento entre pessoas situadas em espaços diferentes.
Nesse sentido, a própria sala metapresencial também se tornou objeto de reflexão. Procuramos observar como câmeras, microfones, telas, conexões, plataformas, posições no espaço e modos de circulação da palavra interferem na experiência da aula. A tecnologia não aparece apenas como suporte invisível, mas como parte ativa da situação pedagógica.
Minha participação concentrou-se especialmente em duas frentes. Na primeira, trabalhamos com cultura digital, mediações sociotécnicas e ecologias do conhecimento. Acompanhamos como uma experiência ou demanda em saúde pode ser transformada em relato, registro, dado, classificação, indicador e decisão. Procuramos perceber que essas transformações não são neutras: cada sistema seleciona, traduz e reorganiza aquilo que pode ser visto, registrado e considerado válido.
Na segunda frente, abordamos a inteligência artificial como mediação cognitiva e sociotécnica. Além de experimentar diferentes ferramentas e formas de interação com modelos de IA, discutimos como esses sistemas reorganizam informações, produzem classificações, sugerem relações e redistribuem capacidades de conhecer, decidir e assumir responsabilidades.
Também conversamos sobre os erros e limites dos modelos, a importância do contexto, as diferenças entre ferramentas, a dependência de bases de dados e infraestruturas, os modelos proprietários e abertos e os possíveis impactos da IA sobre a gestão, a pesquisa, a formação e o cuidado em saúde.
A proposta não foi apresentar a inteligência artificial como solução automática, nem tratá-la apenas como ameaça. O desafio foi compreender concretamente como ela participa das práticas, quais conhecimentos preserva ou simplifica, quem ganha ou perde capacidade de ação e que valores estão incorporados em cada sistema.
As atividades também dialogaram com as situações-problema e os projetos trazidos pelos próprios mestrandos. Em um mestrado profissional, essas discussões precisam contribuir não apenas para a reflexão teórica, mas também para a pesquisa, a intervenção nos serviços e, quando pertinente, para a elaboração de Produtos Técnicos e Tecnológicos.
Foi uma experiência intensa de aprendizagem compartilhada. As perguntas, relatos e situações apresentadas pelos estudantes reforçaram a percepção de que a Saúde Digital é um campo interdisciplinar em construção, situado entre tecnologia, sociedade, ciência, Estado, gestão e cuidado.

Agradeço aos colegas, aos estudantes e a toda a equipe envolvida na realização do componente. Saio dessas aulas com novas questões, muitos aprendizados e a convicção renovada de que compreender a transformação digital da saúde exige aproximar teoria e prática, experimentação e reflexão crítica.
Como parte da experiência, também produzimos resumos detalhados dos encontros, elaborados a partir das gravações e transcrições das aulas e posteriormente revisados com apoio de inteligência artificial. Eles podem ser acessados em:

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