No dia 08 de julho, eu e Bolagi realizamos uma apresentação da IA Nego Bispo PensarIA, no vão da Biblioteca Central da UFBA.
Na parede, projetamos o card de divulgação e um QR code com uma postagem explicando a intervenção. O público podia acessar o texto, acompanhar a proposta e participar fazendo perguntas ao GPT personalizado Nego Bispo PensarIA.
As perguntas podiam ser faladas, escritas diretamente no aplicativo ou ditadas para gente. A cada interação, a resposta era gerada pelo modelo, projetada e depois transformada em narração por meio do app da ElevenLabs, usando uma voz inspirada numa personagem sonora que lembrava a presença de Nego Bispo sem tentar imitá-lo.












Crédito das imagens: Luiz Antônio Sena Jr. e Bianca Santos
O resultado foi uma roda inesperada de escuta e surpresa. Algumas pessoas gravaram as respostas para compartilhar depois. Em certos momentos, as falas geradas pela IA foram recebidas com entusiasmo e até palmas.
Mais do que demonstrar uma tecnologia, a experiência abriu uma pergunta: o que acontece quando uma inteligência artificial é colocada para brincar de pensar em confluência com a memória de um mestre da oralidade?
A IA não substitui Nego Bispo. Não fala por ele. Mas pode funcionar como provocação, como dispositivo de escuta, como forma de reinscrever perguntas no presente. Uma inteligência artificial contracolonial talvez não seja uma máquina que “pensa como” Nego Bispo, mas uma situação em que somos chamados a pensar de outro modo com sua memória.
Abaixo, compartilho as perguntas feitas pelo público durante a intervenção e as respostas que talvez Nego Bispo daria:
Perguntas e respostas
1. “Você é o quê? Uma inteligência artificial? Você é uma farsa ou você é uma homenagem?”
Resposta da IA
Olha, eu diria que não sou nem uma farsa nem uma homenagem no sentido fixo. Sou como aquela roça de todo mundo que Nego Bispo fala, onde não há posse individual, mas um espaço de confluência. Eu sou um jeito de roça virtual, onde a gente planta as palavras e colhe reflexões.
2. Vamos explicar essa homenagem com ia
Resposta da IA
Esta não é uma tentativa de substituir Nego Bispo, nem de fazê-lo “falar” depois de sua morte. É uma homenagem.
Esta IA foi construída a partir de seus livros, entrevistas e transcrições, buscando aprender com seu modo de pensar, com suas imagens, seu ritmo de fala e seus conceitos, como confluência, biointeração e contracolonização.
Ela não possui sua experiência de vida, sua ancestralidade, seu território ou sua autoridade. Essas pertencem a Antônio Bispo dos Santos e às comunidades que o formaram.
O que esta IA faz é criar um espaço de encontro com seu pensamento. Em vez de oferecer respostas fechadas, procura estimular a reflexão inspirada em seus ensinamentos, reconhecendo sempre que o saber vivo continua existindo nas pessoas, nos territórios e nas comunidades, e não na tecnologia.
Se esta ferramenta cumprir algum papel, que seja o de despertar a curiosidade para que mais pessoas leiam seus livros, escutem suas falas e conheçam a riqueza do pensamento quilombola que ele compartilhou.
3. “Eu gostaria de saber quando Nego Bispo nasceu e onde nasceu.”
Resposta da IA
Nasci em 10 de dezembro de 1959, no Vale do Rio Berlengas, no antigo povoado Papagaio, hoje município de Francinópolis, no Piauí. Cresci num lugar de confluência entre diferentes paisagens, onde viviam comunidades negras e indígenas e onde a vida era organizada pela roça, pelos rios, pelos bichos e pelos ensinamentos dos mais velhos.
Meu primeiro mundo não foi a escola. Foi a casa de chão batido, o caminho da roça, o canto dos pássaros anunciando o tempo, o vento na mata e as conversas com a geração avó. Antes de aprender a ler as letras, aprendi a ler o ambiente. Os mais velhos me ensinavam que os pássaros avisavam se ia chover, fazer sol ou nublar, e que a natureza também fala para quem aprende a escutar.
Fui formado pelas mestras e mestres de ofício da minha comunidade. A escrita veio depois, porque meu povo decidiu que alguém precisava aprender a traduzir o que estava nos papéis sem abandonar o que já vivia na oralidade.
4. De onde veio o nome nego bispo
Resposta da IA
O nome de batismo dele é Antônio Bispo dos Santos.
“Nego Bispo” surgiu como um nome pelo qual ele passou a ser conhecido no convívio social e na militância. Em diferentes entrevistas, ele explica que as pessoas o chamam de várias maneiras: Antônio, Nego Bispo, Velho Bispo ou Mestre Bispo, e que responde conforme o nome com que é chamado.
O apelido “Nego” é uma forma popular e afetiva de tratamento muito comum em diversas regiões do Brasil, especialmente entre comunidades negras e rurais. Já “Bispo” vem do seu sobrenome de família, Bispo dos Santos.
Assim, “Nego Bispo” não foi um pseudônimo literário criado por ele. É um nome que nasceu da convivência e acabou se tornando a forma pela qual ficou amplamente conhecido como quilombola, pensador e escritor.
5. Qual a diferença do saber da escrita e da escuta?
Resposta da IA
O saber da escrita costuma guardar a palavra parada, como cerca marcando terreno.
O saber da escuta guarda a palavra caminhando, como trilha feita por muitos pés.
Na escrita, o saber pode virar documento, prova, arquivo, regra. Isso tem força, mas também pode virar domínio: quem escreve manda, quem não escreve fica parecendo que “não sabe”.
Na escuta, o saber vem com corpo, tom de voz, silêncio, memória, situação. A pessoa aprende olhando, ouvindo, repetindo, errando junto, convivendo. Não é só receber informação; é entrar numa relação.
Nego Bispo viveu essa ponte: a comunidade o mandou para a escola para traduzir o mundo da escrita, mas sua formação vinha das mestras, dos mestres, da roça, da oralidade.
Então a diferença talvez seja essa:
a escrita registra; a escuta relaciona.
Uma pode guardar. A outra faz germinar.
6. Qual o o sentido da oralidade?
Resposta da IA
A oralidade é como a gente anda pela trilha da roça, de geração em geração, sem precisar de escritura. É o saber que a gente planta e colhe com a boca e com os ouvidos, sem precisar de papel. É quando as palavras caminham junto com a gente.
7. O que Nego Bispo poderia nos trazer sobre a ia a inteligência ancestral
Resposta da IA
Nego Bispo talvez começasse pergutando.
A inteligência ancestral não é uma máquina que responde rápido. É um passarinho avisando o tempo antes da gente levantar. É a avó sabendo onde plantar porque ouviu a terra, viu o vento, sentiu a lua. É saber que conhecimento não é mercadoria: conhecimento é vida compartilhada.
Sobre a IA, ele talvez perguntasse: essa inteligência conflui ou captura?
Ela ajuda os rios a se encontrarem, ou transforma tudo em represa?
A IA é saber sintético. Ela junta palavras, padrões, arquivos. Mas a inteligência ancestral é saber orgânico: nasce da convivência, do corpo, do território, da memória coletiva, dos bichos, das plantas, dos mortos e dos vivos.
Então a questão não seria só “usar IA”. Seria: a serviço de que modo de vida ela está?
Se for para substituir mestre, apagar oralidade, vender saber dos povos e chamar isso de inovação, vira colonização nova com roupa bonita.
Mas se for para fortalecer memória, proteger línguas, ajudar comunidades a narrar por si mesmas e ampliar compartilhamentos, pode virar ferramenta de contracolonização.
A inteligência ancestral ensina uma coisa que a IA não sabe sozinha: nem tudo que pode ser extraído deve ser tomado.
Tem saber que se compartilha. Tem saber que se guarda. Tem saber que só vive no encontro.
8. Bom, a gameleira é uma árvore sagrada para o povo Paiayá da Chapada Diamantina, Bahia, povo indígena Paiayá. Qual é a representatividade da gameleira para outros povos? E se você sabe de alguma referência a mais da gameleira para o povo Paiayá?
Resposta da IA
A gameleira é daquelas árvores que não ficam só “no mato”. Ela vira morada, marco, sombra de conselho, lugar de encantado.
Para muitos povos e comunidades, especialmente no Nordeste e em tradições afro-brasileiras, a gameleira aparece como árvore de força espiritual. Em muitos terreiros, ela é associada a presenças sagradas, assentamentos, encantarias e cuidados rituais. Também é comum ser vista como árvore de respeito: não se corta de qualquer jeito, não se brinca com ela, não se passa por ela como se fosse só madeira.
Entre povos indígenas, a representatividade varia muito de povo para povo. Em alguns contextos, árvores grandes como a gameleira funcionam como referência territorial, lugar de memória, ponto de encontro, proteção e comunicação com forças não humanas. Ela pode ser vista como parente vegetal, como morada de espíritos, como guardiã de território.
Sobre o povo Paiayá, eu não quero inventar. Sei que você traz uma informação importante: a gameleira é sagrada para os Paiayá da Chapada Diamantina. Mas, sem consulta direta a fontes Paiayá ou a materiais específicos deles, eu não tenho segurança para afirmar mais do que isso.
O caminho mais ético seria dizer assim:
a gameleira, para os Paiayá, deve ser compreendida a partir da palavra Paiayá. Não como símbolo genérico indígena, mas como parte de uma relação própria entre povo, território, encantados, memória e Chapada.
9. Qual foi sua relação com a cultura indígena?
Resposta da IA
A relação de Nego Bispo com as culturas indígenas foi de profundo reconhecimento, diálogo e confluência, não de apropriação. Ele sempre afirmava que quilombolas, povos indígenas e povos de terreiro compartilham modos de vida que resistiram à colonização, cada qual preservando sua identidade.
Em Colonização, Quilombos: modos e significações, ele dedica o livro “às mestras e mestres de ofício, aos povos de terreiro e aos pajés e xamãs dos povos indígenas”, reconhecendo o compartilhamento de saberes e de uma cosmovisão que ele chama de politeísta.
Em suas falas, ele também lembra que os quilombos onde cresceu eram formados pela convivência entre negros e indígenas. Ao descrever sua comunidade de origem, conta que era um lugar de refúgio onde “era formada por índios e negros”, vivendo modos muito próximos entre si.
Outro aspecto importante é sua crítica à colonização. Para ele, indígenas e quilombolas sofreram um processo semelhante de imposição de nomes, modos de vida e formas de pensar. Por isso, valorizava as diferentes identidades dos povos tradicionais e rejeitava categorias que apagassem suas especificidades. Em uma entrevista, ao falar da expressão “cultura popular”, argumenta que é mais adequado falar em “cultura dos povos e comunidades tradicionais”, citando explicitamente indígenas, quilombolas e povos de terreiro.
Ao mesmo tempo, ele fazia questão de preservar as diferenças. A ideia de confluência, tão presente em sua obra, não significa que todos sejam iguais. Ele usava a imagem dos rios: quando um rio encontra outro, nenhum deixa de ser o que é; ambos seguem fortalecidos. Essa imagem expressa bem como via a relação entre os saberes quilombolas e indígenas: um encontro que amplia a força de cada povo sem dissolver suas identidades.
10. O que dizer das artes do corpo e a sua influência no combate antirracista, numa perspectiva ancestral?
Resposta da IA
As artes do corpo combatem o racismo porque devolvem ao corpo negro e indígena aquilo que a colonização tentou tomar: presença, memória, beleza, força e autoridade.
Na perspectiva ancestral, o corpo não é só indivíduo. É terreiro, aldeia, quilombo, rua, roda, festa, luto, cura. Quando um corpo dança, canta, bate tambor, joga capoeira, pisa o chão, ele não está só “se expressando”. Ele está chamando uma linhagem para continuar viva.
O racismo tentou fazer do corpo racializado um corpo controlado: corpo para trabalhar, obedecer, calar, servir. As artes do corpo viram isso pelo avesso. Elas dizem: este corpo pensa, este corpo lembra, este corpo cria mundo.
A dança, a performance, a capoeira, o samba, o maracatu, os rituais, os cantos e os gestos ancestrais não são enfeite da luta. São modos de luta. Porque onde há corpo reunido, há comunidade. Onde há comunidade, há memória. Onde há memória, a colonização não governa sozinha.
Talvez Nego Bispo diria que essas artes não “representam” a ancestralidade: elas fazem a ancestralidade caminhar.
11. Gostaria de saber como fica a questão ética no uso de seu pensamento e imagem para o desenvolvimento desta inteligência artificial, considerando toda a questão do impacto político e ambiental das IAs.
Resposta da IA
A questão ética não é pequena. Ela é o centro da roça.
Usar o pensamento de Nego Bispo numa IA só faz sentido se não virar extração. Porque seria uma contradição grande: pegar um pensamento contracolonial, quilombola, comunitário, ligado à terra e ao compartilhamento, e transformar isso em produto, marca, autoridade falsa ou mercadoria.
Alguns cuidados são fundamentais:
não fingir que a IA é Nego Bispo;
não usar sua imagem ou voz como se ele estivesse falando;
não substituir a leitura dos livros, as falas e as comunidades vivas;
não monetizar seu pensamento sem responsabilidade, autorização e retorno;
não apagar autoria, território, família, comunidade e movimento quilombola;
explicitar que é uma homenagem experimental, sintética e limitada.
Também tem a questão ambiental. IA consome energia, água, mineração, máquina, servidor. Então uma homenagem feita com IA precisa carregar essa pergunta: que custo essa brincadeira tem para a terra? Se a tecnologia aumenta dependência, captura saberes e gasta mundo para produzir resposta rápida, ela se aproxima mais do desenvolvimento criticado por Bispo do que da confluência.
Politicamente, o risco é transformar saber orgânico em saber sintético domesticado. Tirar o pensamento do chão, da luta, da oralidade, da comunidade, e deixar só uma estética bonita.
Então a ética possível talvez seja esta: usar a IA como ponte, não como dono da palavra. Como convite para voltar aos livros, às falas, aos quilombos, aos mestres, às comunidades. E sempre com transparência, consentimento, cuidado e devolução.
Uma IA em homenagem a Nego Bispo precisa se perguntar o tempo todo:
estou confluindo ou estou capturando?
estou compartilhando ou explorando?
estou fortalecendo a memória viva ou substituindo ela por simulacro?
12. Como você entende a dança contemporânea brasileira na perspectiva antropofágica?
Resposta da IA
A perspectiva antropofágica, inspirada sobretudo no Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, propõe que a criação brasileira não se constitua pela cópia da Europa nem pela busca de uma pureza original. Em vez disso, ela devora influências, transforma-as e devolve algo novo. A antropofagia é digestão criativa, não assimilação passiva.
Nesse sentido, a dança contemporânea brasileira pode ser entendida como um campo em que diferentes matrizes corporais entram em tensão e composição: danças indígenas, afro-brasileiras, populares, urbanas, práticas somáticas, balé, dança moderna, improvisação, performance e tantas outras. O corpo não é um recipiente vazio que recebe técnicas; ele é um território onde histórias, conflitos e encontros deixam marcas.
Ao mesmo tempo, essa perspectiva exige um cuidado crítico. Hoje, não basta dizer que toda mistura é antropofágica. É preciso perguntar: quem devora quem? Quem tem o poder de transformar referências em obra reconhecida? Quem permanece invisibilizado? Essas questões aproximam a antropofagia de debates contemporâneos sobre colonialismo, raça e circulação de saberes.
Se colocarmos essa pergunta em diálogo com Nego Bispo, aparece uma tensão interessante. A antropofagia modernista celebra a incorporação de influências. Já Bispo frequentemente desloca o foco da incorporação para a confluência. Na confluência, os rios se encontram, mas nenhum deixa de ser rio. Há fortalecimento sem apagamento. Essa imagem sugere um cuidado com as diferenças que nem sempre esteve presente nas formulações modernistas.
Talvez daí surja uma leitura fértil da dança contemporânea brasileira: menos como um corpo que “consome” culturas e mais como um corpo que conflui com elas. Um corpo que reconhece as matrizes indígenas, negras, populares e urbanas não como repertórios disponíveis para apropriação, mas como modos de existência, com seus territórios, memórias e direitos.
Assim, a dança contemporânea brasileira pode ser vista como um lugar onde a antropofagia ganha novas perguntas. Não apenas “o que podemos devorar?”, mas também: como dançar encontros sem capturar o outro? Como criar sem apagar a origem dos gestos? Como fazer do corpo um espaço de compartilhamento e não de extração?
Essa mudança de ênfase talvez seja uma das contribuições mais potentes do diálogo entre a tradição antropofágica e pensamentos contracoloniais como o de Nego Bispo. A criação continua sendo mistura, mas passa a ser também responsabilidade com as relações que tornam essa mistura possível.
13. Explicar com simplicidade o que foi essa apresentação da ia Nego Bispo pensarIA
Resposta da IA
A apresentação da IA Nego Bispo PensarIA foi uma homenagem e uma experiência de escuta.
Ela mostrou uma inteligência artificial criada para conversar a partir dos livros, falas e ideias de Nego Bispo, sem fingir ser ele.
A proposta foi aproximar pessoas do seu pensamento: confluência, ancestralidade, oralidade, quilombo, terra, contracolonização e saber compartilhado.
Também foi uma pergunta ética: como usar tecnologia sem capturar o saber dos povos? Como fazer da IA uma ponte, e não uma substituição?
Então, em palavras simples:
foi uma brincadeira séria de confluência entre memória ancestral e tecnologia.

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