Entrevista no Revele

No dia 22 de julho, participei do programa Revele, transmitido pela Rádio Metrópole e também pelo canal do Portal Metro1 no YouTube, apresentado por Guerreiro e Valdir. Estive ao lado da artista, pesquisadora e coreógrafa Sheila Ribeiro, em uma conversa sobre cultura em tempos de inteligência artificial.

Sheila contou que sua aproximação com a cultura digital, a robótica e as relações entre corpos e tecnologias vem de muitos anos. A atual popularização das inteligências artificiais generativas, no entanto, produziu um novo impacto, porque essas tecnologias passaram a participar diretamente da escrita, da criação de imagens, da produção de conhecimento e até de relações afetivas.

Procurei situar essa transformação dentro de uma história mais longa das tecnologias da cultura. A humanidade sempre viveu em diferentes ecologias cognitivas, organizadas pela oralidade, pela escrita, pela imprensa, pelas tecnologias elétricas, pelo rádio, pela televisão e pelas redes digitais.

Cada uma dessas transformações modificou não apenas os meios utilizados para transmitir informações, mas também as formas de perceber o mundo, lembrar, pensar, criar e conviver. A inteligência artificial aparece agora como um novo elemento estruturante desse ambiente cultural.

Sheila destacou que talvez seja insuficiente perguntar apenas se devemos ou não “usar” inteligência artificial. Essa formulação trata a IA como uma ferramenta passiva e neutra, semelhante a um pincel ou a um martelo. Mas esses sistemas respondem, sugerem, reorganizam nossos pedidos e interferem no percurso da criação. Há uma relação recursiva e dialógica, estabelecida com entidades dotadas de uma espécie de semiautonomia.

Essa questão nos levou ao problema da autoria. Falei sobre minha própria experiência escrevendo colunas e outros textos em processos de cocriação com assistentes de IA. O resultado não é simplesmente produzido pela máquina, mas também já não pode ser descrito como o produto isolado de um autor humano soberano.

São textos híbridos, construídos por meio das interações entre uma pessoa, um modelo de linguagem, seus dados de treinamento, as interfaces, as escolhas de edição e todo o repertório cultural mobilizado durante o processo.

Isso não elimina a responsabilidade do autor. Pelo contrário, torna ainda mais importantes a revisão, a curadoria, a contextualização e a capacidade de responder pelo que é publicado. A IA pode participar do processo, mas não assume automaticamente a responsabilidade ética, intelectual ou política pelo resultado.

Conversamos também sobre as imagens da ficção científica que moldam nossa percepção dessas tecnologias. Lembrei minha antiga relação com os livros de Isaac Asimov, especialmente suas histórias de robôs e a ideia do “complexo de Frankenstein”: o medo de que toda criatura artificial inevitavelmente se volte contra seu criador.

Em vez de reduzirmos o debate à oposição entre entusiasmo ingênuo e apocalipse tecnológico, precisamos desenvolver uma alfabetização crítica capaz de compreender os sistemas, reconhecer seus riscos e disputar seus possíveis usos.

A conversa abordou ainda os conflitos em torno do direito autoral, da apropriação de estilos artísticos e do uso de obras humanas no treinamento de modelos pertencentes a grandes corporações. Discutimos como a inteligência artificial está inserida em uma economia marcada pela concentração de dados, infraestrutura e poder.

Ao mesmo tempo, lembramos que a cultura digital também possui uma história de colaboração, software livre, Wikipédia, conhecimento aberto e criação coletiva. Por isso, é importante fortalecer modelos abertos, pesquisas públicas e iniciativas locais comprometidas com a soberania tecnológica, com as variedades da língua portuguesa, os sotaques e as memórias culturais brasileiras.

Tratamos também da dimensão geopolítica e regulatória da inteligência artificial. As decisões sobre essas tecnologias não podem ficar restritas às grandes empresas ou às disputas entre as potências globais. Países do Sul Global precisam participar da construção de formas de governança voltadas ao bem comum, à diversidade cultural e à autonomia dos territórios.

Mais do que descobrir se a inteligência artificial será uma ferramenta, uma parceira, uma ameaça ou uma infraestrutura invisível, precisamos perguntar:

Que relações desejamos construir com ela e que formas de coexistência estamos dispostos a inventar?

Foi uma alegria participar dessa conversa com Sheila Ribeiro, em um programa conduzido com inteligência, curiosidade e bom humor.

O episódio completo está disponível no YouTube do Portal Metro1 — Rádio Metrópole:

Revele — André Stangl e Sheila Ribeiro — 22/07/2026

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